A abordagem da imprensa escrita e televisão sobre os festivais, por Ana Teresa Ventura

18/11/2014

Ana Teresa Ventura

Créditos imagem: Edgar Keats

 

 

Durante 10 anos no jornal Blitz e mais tarde na revista, Ana Ventura faz hoje parte das transmissões televisivas da SIC nos festivais de música como o ‘rosto’ que melhor conhece a música. A APORFEST falou com a jornalista sobre o seu percurso na imprensa escrita e televisiva e a sua visão sobre o jornalismo feito em Portugal nos festivais. 

 

APORFEST (A): Lembras-te qual foi o primeiro festival que cobriste?

ANA VENTURA (AV): Não... Haverá de ter sido algum em 98, que foi o primeiro verão que fiz no Blitz, agora qual foi o primeiro... Lembro-me de ter feito o T99, seguramente hei de ter feito algum antes mas esse é aquele que tenho memória, o que não deixa de ser curioso porque aconteceu apenas uma vez, no Estádio Nacional, em que os cabeça de cartaz foram os Metallica e os Garbage.

 

(A):Quais eram os moldes da cobertura?

(AV): Não era muito diferente do que é hoje em dia. Era muito mais complicado conseguir os alinhamentos, porque não haviam os meios de hoje, a pesquisa na internet não era tão fácil... Tínhamos dois computadores ligados à internet na redação do Blitz. Era basicamente uma review, com uma dose pessoal muito grande.

 

(A): O número de caracteres da reportagem, num todo, era mais pequena que a de hoje?

(AV): Num jornal escreve-se muito. Os festivais eram mais pequenos e os alinhamentos eram menores, o sudoeste, por exemplo, tinha dois palcos. No primeiro ano em que o sudoeste teve quatro palcos a cobertura foi feita por mim e pela Ana Markl e em quatro dias emagreci quatro quilos.

 

(A): Os moldes e a quantidade de trabalho variam muito em comparação?

(AV): Dava muito mais trabalho. Hoje em dia no reino do online está escrito e publicado. Nós tentávamos fazer noite a noite, mas normalmente na última noite é que íamos escrever tudo. Podias ter uma cobertura de 6 ou 8 páginas, era muito. Quando foi a passagem a revista é que tudo mudou, porque num jornal escreve-se muito numa página. A quantidade de texto não é muito inferior ao que se escreve hoje no online.

 

(A): Quando entraste para o Blitz como é que a indústria encarava os festivais?

(AV): Em termos de indústria as editoras aproveitavam muito os festivais. Era a altura em que tinham os artistas cá e nós fazíamos muito trabalho (...) já viam os festivais como uma boa altura para fazer trabalho de promoção. Acho que os festivais não eram encarados com toda a pompa e circunstância que são hoje. Se pensarmos que o David Bowie veio a Portugal num festival e pouca gente se lembra, hoje fala-se muito dos Rolling Stones virem ao Rock In Rio mas há 20 anos isso também acontecia, agora seguramente todos se vão lembrar que eles vieram ao Rock in Rio mas poucos se lembram que o David Bowie veio ao Super Bock Super Rock. Os festivais não tinham a mesma projeção, apesar de serem muito importantes para quem estava especificamente no mundo da música.

 

(A): Qual foi a cena mais insólita a que assististe num festival? Estavas a trabalhar?

(AV): Eu estava no apedrejamento dos Nickelback no Ilha do Ermal. Reportei-o factualmente, não foi uma coisa bonita e foi muito gratuita, acho que os Nickelback foram um erro decasting naquele cartaz e o público estava lá para o dia seguinte – com os Slipknot – mas acho que nada justificava aquilo. Ficou a história de terem sido apedrejados mas levaram com muita coisa em cima. Assisti a mais três: no sudoeste em que o Virgul fez uma fratura exposta assim que entrou em palco, num concerto dos Da Weasel; estive no sudoeste em que os Oasis abandonaram o palco; vi também o Ricky Wilson a entrar em Paredes de Coura a fazer as suas macacadas em palco e a fazer uma entorse logo no início, a pôr tape à volta do tornozelo e a fazer o concerto inteiro, o mais típico possível dos Kaiser Chiefs, com uma entorse. Mas continuou, é um caso de sucesso.

 

(A): Na imprensa escrita desenvolveu-se a forte componente multimédia, conhecendo a realidade jornalística europeia, existe alguma coisa que o jornalismo português pudesse fazer melhor ou que se faça melhor por cá?

(AV): Pessoalmente acho que no online os media portugueses trabalham muito bem na cobertura dos festivais. Não precisas de estar lá para saberes passo a passo o que aconteceu. Não acho que fiquemos muito atrás. Podemos ter menos condições, em comparação com orgãos como os ingleses em que existe vídeo mas penso que seja uma questão de tempo. Acho que os jornalistas portugueses fazem um bom trabalho.

 

(A): Passando à televisão. A questão das transmissões, de concertos na íntegra. Foi algo que mudou desde que chegaste à SIC até hoje. 
(AV): Não, está exatamente igual.

 

(A): O público e os artistas mudaram de posição?

(AV): A decisão é única e exclusivamente dos artistas. São eles que decidem se querem ou não que o concerto seja transmitido, é algo que ultrapassa a vontade do canal. Lembro-me deste ano, no Talkfest, o Álvaro Costa contar uma história que se tinha passado no ano anterior. Perguntou ao público que assistia à conferência se adivinhava quanto tempo é que os Depeche Mode tinham autorizado de transmissão. Eu disse que tinham sido 30 segundos - e tinham sido 30 segundos - porque foi o que os Coldplay autorizaram quando estiveram no Alive em 2011. É algo que ultrapassa a promotora e o canal oficial por muita vontade que tenham de transmitir é a banda que decide.

 

(A): As bandas começaram a autorizar menos?

(AV): Não. Temos bandas que autorizam e bandas que não autorizam. Pelo contrário, nos últimos anos tivemos muitos concertos, na primeira noite do Alive de 2010 – com Faith No More – a SIC Radical transmitiu praticamente a noite toda. Depende muito da estratégia de marketing que a banda tem na altura. Se a banda estiver a preparar-se para editar um DVD ao vivo, não vai querer que o concerto seja transmitido. Muita coisa é decidida quando a banda chega ao recinto do festival. Não acho que já tenhamos transmitido mais ou menos, nesse aspeto acho que as coisas não mudaram muito.

 

(A): O que é que a SIC faz muito bem nos festivais?

(AV): A cobertura (risos). A SIC tem uma vantagem muito grande em relação aos outros canais que é ter um canal que pode dar mais tempo de antena, que é um canal especifico no cabo com um público que à partida quer ver os festivais. Aquilo que os outros canais aprendem agora a SIC tem há muitos anos, existe um know how imbatível. Uma equipa que trabalha há muito tempo, sobretudo a equipa técnica que sabe o que é preciso para a cobertura. E faz diferença ter a cobertura na televisão ou no online. O online crasha, é tudo diferente. Ligas a SIC Radical e tens tudo a acontecer, não tens de procurar links, nada. É uma tremenda mais valia e também a experiência que faz com que de ano para ano exista vontade de fazer melhor. Mas a competição é algo muito saudável.

 

(A): O que podia crescer na abordagem televisiva sobre os festivais?

(AV): Gosto muito do modelo que temos hoje. Gosto de acreditar que é divertido assistir a um festival quando se está em casa, nós conseguimos transmitir para casa aquilo que está a acontecer. Houve uma melhoria muito grande nos últimos anos, acho que o público em casa gosta das entrevistas aos artistas e é algo que de ano para ano temos tido cada vez mais. Mesmo que não se faça a transmissão dos concertos na íntegra, se tivermos pedaços emitimos, mesmo que não seja em direto, são grandes mais valias. Tudo isso foram pormenores acertados ao longo dos anos. Mostrar o que está a acontecer é importante, a experiência dos festivais não é apenas a música é também o que está a acontecer, acho que as pessoas também gostam de se ver nos festivais. Acho que estamos no caminho certo, com espaço para melhorar, mas acho que a SIC faz um bom trabalho nos festivais.

 

(A): O vosso modelo de emissão, o da RTP e SIC Notícias são três modelos diferentes na abordagem feita aos festivais. O da SIC Radical é o mais competente ou é apenas uma questão de abordagem?

(AV): É uma questão de abordagem. A SIC Notícias nunca fará o mesmo da SIC Radical, porque a abordagem da SIC Notícias é noticiosa, na SIC Radical temos uma grande componente de entretenimento. Não acho que nenhuma das três seja pior ou melhor, são diferentes.

 

(A): Existem festivais com potencial para uma emissão televisiva que não a têm?

(AV): Acho que já houve. Alguns já tiveram e agora não têm. Especificamente Paredes de Coura acho que merecia mais que aquilo que tem. Quando tem como canal oficial uma TVI 24, sendo um canal noticioso, a abordagem não será a que os artistas ou o próprio promotor podiam permitir, a SIC Radical já o fez. Depois existe outro festival, com uma boa cobertura online, que é o Milhões de Festa. Em termos de cobertura online o Milhões de Festa é muito curioso. A Vice faz um ótimo serviço com o festival. Acho que sobretudo o Paredes de Coura merecia mais.

 

(A): Nos festivais de média e pequena dimensão existem alguns que podiam ter um resultado – em televisão – interessante ou simplesmente diferente do que têm? O universo de festivais é muito grande e os que têm cobertura televisiva são uma minoria.

(AV): O Milhões de Festa acho que podia fazer mais nesse campo. Se de facto, como foi anunciado, em 2015 voltar a haver Sol da Caparica acho que também vai haver uma abordagem muito diferente ao festival e estou em crer que inevitavelmente o trabalho da SIC Notícias com o NOS Primavera Sound vai crescer. Acho que esses são os três, que eventualmente, poderão crescer ou mudar a sua abordagem precisamente porque se justifica.

 

(A): O Bons Sons ou o Fusing?

(AV): O Fusing, por exemplo, o tipo de trabalho que a Antena 3 faz justifica-se em termos de rádio não sei até que ponto o Fusing se justificaria assim tanto em termos de televisão. O Bons Sons acho que é um caso diferente, não sei até que ponto não iria desvirtuar o conceito. Precisamente por ser um festival cosy, lembro-me de ler as reportagens, em específico a do Público, com a descrição do que é estar lá e se estivesse lá uma televisão acho que podia desvirtuar um pouco ou tirar o lado mágico. Não sei até que ponto para um festival como o Bons Sons ter uma televisão seria bom, acho que os festivais de pequena e média dimensão pretendem isso mesmo, faz parte estar lá para sentires a mística do festival.

 

(A): Os festivais trazem algo único à experiência da música ao vivo?

(AV): Sim. A música para mim é uma experiência muito intima, no entanto, o facto de estares a partilhá-la com milhares de pessoas torna a experiência da música única. Ires à descoberta de artistas que podias não conhecer, quando se é jornalista isso é um bocadinho perverso. Os jornalistas vão muitas vezes formatados a acreditar que já conhecem tudo. Eu gosto de ir a um festival e não conhecer o artista e sair de lá e querer ter toda a sua discografia. Isso só podes ter num festival. É quase uma euforia sem qualquer aditivo químico, só consegues através da música e da partilha da música.

Também acho que um artista ou uma banda vai sempre tentar fazer algo diferente. Uma coisa é estar num concerto em nome próprio em que tu sabes que o público que está à tua frente é o teu público, mesmo para as bandas atuar num festival é um grande desafio. Têm ali muito público deles mas têm também muito público que não está ali para os ver.

 

(A): Com o surgimento da APORFEST os festivais podem ter os seus conceitos otimizados?
(AV): Todas as iniciativas que surjam à volta dos festivais vão ser benéficas, tanto a nível das promotoras como do público. É importante compreender melhor o fenómeno dos festivais e em Portugal são um fenómeno, estamos numa crise económica e os festivais continuam a aumentar e a ter cada vez mais público. Isto faz com que este universo dos festivais e a indústria dos festivais – porque hoje em dia é uma indústria – possa sempre melhorar. Haver debates, estudos só pode fazer com que as coisas de facto melhorem, há um espaço não só para as promotoras compreenderem o que falta mas também para o público dos festivais ter uma palavra a dizer sobre o que quereria mais, diferente ou melhor. Acho que qualquer veículo de diálogo vai ajudar a que este universo seja melhor compreendido, logo mais eficaz. 

 

 

Entrevista realizada por Tiago Fortuna

 

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