A abordagem da imprensa escrita e televisão sobre os festivais, por Ana Teresa Ventura

Ana Ventura
Ana Teresa Ventura

Créditos imagem: Edgar Keats


Durante 10 anos no jornal Blitz e mais tarde na revista, Ana Ventura faz hoje parte das transmissões televisivas da SIC nos festivais de música como o ‘rosto’ que melhor conhece a música. A APORFEST falou com a jornalista sobre o seu percurso na imprensa escrita e televisiva e a sua visão sobre o jornalismo feito em Portugal nos festivais.


APORFEST (A): Lembras-te qual foi o primeiro festival que cobriste?

ANA VENTURA (AV): Não... Haverá de ter sido algum em 98, que foi o primeiro verão que fiz no Blitz, agora qual foi o primeiro... Lembro-me de ter feito o T99, seguramente hei de ter feito algum antes mas esse é aquele que tenho memória, o que não deixa de ser curioso porque aconteceu apenas uma vez, no Estádio Nacional, em que os cabeça de cartaz foram os Metallica e os Garbage.


(A):Quais eram os moldes da cobertura?

(AV): Não era muito diferente do que é hoje em dia. Era muito mais complicado conseguir os alinhamentos, porque não haviam os meios de hoje, a pesquisa na internet não era tão fácil... Tínhamos dois computadores ligados à internet na redação do Blitz. Era basicamente uma review, com uma dose pessoal muito grande.


(A): O número de caracteres da reportagem, num todo, era mais pequena que a de hoje?

(AV): Num jornal escreve-se muito. Os festivais eram mais pequenos e os alinhamentos eram menores, o sudoeste, por exemplo, tinha dois palcos. No primeiro ano em que o sudoeste teve quatro palcos a cobertura foi feita por mim e pela Ana Markl e em quatro dias emagreci quatro quilos.


(A): Os moldes e a quantidade de trabalho variam muito em comparação?

(AV): Dava muito mais trabalho. Hoje em dia no reino do online está escrito e publicado. Nós tentávamos fazer noite a noite, mas normalmente na última noite é que íamos escrever tudo. Podias ter uma cobertura de 6 ou 8 páginas, era muito. Quando foi a passagem a revista é que tudo mudou, porque num jornal escreve-se muito numa página. A quantidade de texto não é muito inferior ao que se escreve hoje no online.


(A): Quando entraste para o Blitz como é que a indústria encarava os festivais?

(AV): Em termos de indústria as editoras aproveitavam muito os festivais. Era a altura em que tinham os artistas cá e nós fazíamos muito trabalho (...) já viam os festivais como uma boa altura para fazer trabalho de promoção. Acho que os festivais não eram encarados com toda a pompa e circunstância que são hoje. Se pensarmos que o David Bowie veio a Portugal num festival e pouca gente se lembra, hoje fala-se muito dos Rolling Stones virem ao Rock In Rio mas há 20 anos isso também acontecia, agora seguramente todos se vão lembrar que eles vieram ao Rock in Rio mas poucos se lembram que o David Bowie veio ao Super Bock Super Rock. Os festivais não tinham a mesma projeção, apesar de serem muito importantes para quem estava especificamente no mundo da música.


(A): Qual foi a cena mais insólita a que assististe num festival? Estavas a trabalhar?

(AV): Eu estava no apedrejamento dos Nickelback no Ilha do Ermal. Reportei-o factualmente, não foi uma coisa bonita e foi muito gratuita, acho que os Nickelback foram um erro decasting naquele cartaz e o público estava lá para o dia seguinte – com os Slipknot – mas acho que nada justificava aquilo. Ficou a história de terem sido apedrejados mas levaram com muita coisa em cima. Assisti a mais três: no sudoeste em que o Virgul fez uma fratura exposta assim que entrou em palco, num concerto dos Da Weasel; estive no sudoeste em que os Oasis abandonaram o palco; vi também o Ricky Wilson a entrar em Paredes de Coura a fazer as suas macacadas em palco e a fazer uma entorse logo no início, a pôr tape à volta do tornozelo e a fazer o concerto inteiro, o mais típico possível dos Kaiser Chiefs, com uma entorse. Mas continuou, é um caso de sucesso.


(A): Na imprensa escrita desenvolveu-se a forte componente multimédia, conhecendo a realidade jornalística europeia, existe alguma coisa que o jor