A maturidade cultural da música portuguesa, por Capicua

26/01/2015

Atuou em 15 festivais em 2014, incluindo um no Brasil, e foi uma das figuras de referência do ano na música portuguesa. Está nomeada para o prémio personalidade do ano da Aporfest. Em 2015, Capicua volta à estrada com uma nova digressão e surpresas pelo caminho. Falou connosco sobre o estado da indústria dos festivais, da presença do hip hop neles, e da importância da música ao vivo para o mercado da música. O reconhecimento vivido hoje pela música portuguesa e algumas das suas motivações como artista são outros temas que marcam esta conversa.

 

Tiago Fortuna – Aporfest (A): Gosta de festivais?

Capicua (C): Gosto sim! Desde miúda que vou a festivais, desde 98/99 que costumo ir a festivais de verão. Gosto de concertos em geral, mas gosto de festivais pelo ambiente! Ultimamente tenho menos paciência do que quando era mais nova, mas gosto de festivais! (risos)

 

(A): Neste momento ouve-se muito dizer que os festivais são um fenómeno? Qual é a sua opinião?

(C): Que têm crescido em número, tamanho e variedade em Portugal. Acho que de facto estamos a passar por um crescimento exponencial dos festivais de verão, e não só, inverno também. Cada vez existe mais variedade e afluência de público e tenho assistido a isso com algum interesse porque acho que os festivais de música portuguesa têm crescido, os festivais de música em geral também têm crescido e apostado mais em bandas portuguesas, e a prova de que as pessoas continuam a ir e a encher os festivais é evidente. Não sei se a palavra fenómeno é a melhor, mas acho que estamos a assistir a um boom em todos os sentidos: qualidade, variedade, público.

 

(A): Vivemos numa época de valorização da música portuguesa?

(C): Sim. Acho que em primeiro lugar vivemos numa época de grande qualidade da música portuguesa e depois de valorização, podia dar-se o caso de termos boa música e não ser valorizada. Mas acho que as duas coisas acontecem e tenho muito orgulho de fazer parte deste momento. Depois de longos anos em que não era cool cantar em português, tudo o que vinha de fora era melhor que o que se fazia aqui acho que hoje em dia já não existe esta ideia, vê-se mais bandas a cantar em português – também em inglês - e sobretudo a fazerem boa música e serem valorizadas independentemente da sua origem geográfica e às vezes também especialmente por serem portuguesas, o que eu acho especialmente interessante. Acho que este ano nos festivais tivemos prova viva. Atuei no Bons Sons, Fusing e Sol da Caparica – que também tendo alguns cantores angolanos está dentro do espectro da lusofonia – em três dias seguidos e eram festivais com cartazes muito interessantes, bastante participados, todos provam esta valorização do espectro da música mais comercial à mais tradicional ou à alternativa, há muito espaço para ouvir música portuguesa.

 

(A): O que se passava até aqui, porque havia resistência?

(C): Não sei… Pode ser um conjunto de factores… Acho que é preciso as pessoas habituarem-se e baixarem as suas defesas em relação a algumas questões, neste caso de ouvir cantar em português. A partir do 25 de Abril Portugal viveu um período dos anos 80 a ouvir ainda muita música portuguesa, depois nos anos 90 abriu-se ao mercado da música anglo-saxónica e aquilo que era a cultura de massas, a cultura popular, abriu-se à europa, ao mundo e a influências. O que até aí não tinha acontecido por razões históricas e óbvias. Acho que com essa abertura houve algum deslumbramento. Da mesma forma que nessa altura tivemos esse boom, acho que vivemos agora numa época de maturidade cultural pós 25 de Abril, em que estamos abertos ao mundo e simultaneamente a valorizar aquilo que é português.

 

(A): Como é estimulada a oferta e procura da música nos festivais? Como se posicionam as forças do público e da indústria?

(C): É consensual que estamos a assistir a um momento de efervescência da música portuguesa em que as rádios – que passam a música portuguesa em primeiro lugar – estimulam as pessoas a estarem mais abertas ao mercado musical e a procurarem o que ouvem, é normal que isso se reflita na programação e na afluência aos festivais. Muitos festivais formam opinião e são uma forma de mostrar o que se está a fazer nesse momento. Por um lado acho que é esse interesse e esse acompanhamento feito ao longo do ano que faz as pessoas verem um nome no cartaz e quererem ir ver o concerto. Ao mesmo tempo, os festivais são uma montra do que se faz, talvez eu vá a um festival porque quero ir ver a Gisela João – por exemplo – e até ouço Noiserv que não conhecia e passo a gostar. É um bocadinho as duas coisas. Vamos atraídos pelos músicos que já acompanhamos e a grande vantagem dos festivais é ser uma montra de muitas coisas e acabamos por conhecer novas coisas. Para os músicos também é bom porque se lá vamos para ouvir outras bandas, que não nós, temos oportunidade de conhecer nova música. É um fenómeno que tem muitas dimensões, muitos fluxos, e não pode ser visto como 1+1 = 2.

A internet que se dizia ser o maior inimigo da música, no caso dos concertos não é. As pessoas não compram tantos discos mas acaba por se criar muito mais partilha de música nas redes sociais e partilha de informação entre músicos e artistas. Isso também anima o mercado dos concertos. As pessoas acompanham a agenda do artista no facebook e outras redes sociais e ao longo do ano vão ver os concertos. A prova da internet é importante no meio disto tudo e o fortíssimo marketing que os festivais fazem nas redes sociais e não apenas nos mupis, televisão etc... Acontece cada vez mais através do marketing digital.

 

(A): Quais são as grandes diferenças que sente entre um concerto numa sala ou num festival? O que a estimula mais em cada uma delas?

C: Gosto de ambas as experiências. Em sala, para um público sentado ou não, acho que as pessoas estão mais concentradas. Obviamente que num festival, onde muita coisa acontece ao mesmo tempo, muitos palcos, muita gente que não está ali para nos ver a nós mas outras bandas, existe mais dispersão. São uma oportunidade de conquistar outros públicos que não aquele que foi atraído por nós àquele sítio. Por um lado temos a concentração e intimidade e por outro a dispersão, mas também mais oportunidade de chegar a outros públicos. Também se reflete no alinhamento que levamos e postura em palco. Numa sala fazemos um alinhamento mais tranquilo, as pessoas têm mais capacidade de absorver a música do que num festival, onde iriamos optar por um alinhamento mais enérgico, com menos paragens, menos conversas, para que as pessoas tenham a oportunidade de dançar, de gritar se quiserem, e não é necessária a concentração de uma sala.

 

(A): Dizia-me que os festivais são muito bons para captar novos públicos. Será uma das ferramentas mais eficientes hoje em dia?

(C): Existem várias ferramentas para chegar às pessoas, uma delas é a partilha da informação, os videoclipes, as redes sociais. Mas um concerto é sempre a prova derradeira, as pessoas não estão totalmente conquistadas enquanto não as virmos vibrar num concerto. Por muito que gostemos de um músico acho que só quando chegamos a uma plateia é que ficamos completamente rendidos ou não. É uma prova de fogo, o palco é sempre um bom espaço para mostrarmos o que valemos, arrepiarmos as pessoas. Tocar pelo país é uma oportunidade muito grande de atrair mais gente para a nossa música, é facilmente qualificável. Vamos a uma cidade onde nunca estivemos e no final do concerto, se as pessoas gostaram, vão comprar discos e merchandising. É normal depois chegarmos a casa e vermos que muita gente fez like no facebook. Acaba por resultar em mais proximidade com as pessoas e a chegar a mais gente. Todos nós já fomos a um concerto de um músico por um amigo, em que não conhecemos o artista mas vamos e depois chegamos lá e somos conquistados. Nos concertos existem sempre essas pessoas, nos festivais mais ainda - é uma oportunidade ainda maior.

 

(A): Como é ser uma mulher com tanta relevância na música e no hip hop em Portugal?

(C): É positivo saber que as pessoas dão valor ao meu trabalho. Na música, e no hip hop, o facto de não existirem muitas mulheres dá mais destaque ao meu trabalho. Acho que tenho utilizado isso a meu favor, obviamente, mas também a favor daquilo que é a minha agenda de preocupações sociais, politicas e que têm a ver com questões de género. Sou feminista, as minhas letras falam muito sobre feminismo, acho que a visibilidade que me é dada a mim e à minha música pode ser uma forma de fazer chegar essa minha agenda, as minhas preocupações, a mais pessoas. Ser mulher é uma realidade na qual me sinto muito bem a representar aquilo que eu sou, sinto-me bem na minha pele. Uso a minha música como veículo desses ideais e experiências. Quanto mais visibilidade a minha música vai ganhando, mais tenho capacidade de chegar às pessoas e por isso torna-se em algo muito positivo. Não por uma questão de ego ou culto da personalidade, mas por sentir que se a música é uma forma de fazer chegar as minhas ideias às pessoas, quanto mais estiverem expostas à minha música, mais longe chegará a minha mensagem e isso é uma coisa que me orgulha.

 

(A): O que é que se faz muito bem nos festivais em Portugal?

(C): Temos festivais muito diferentes, com espaços incríveis! Estou a lembrar-me do Paredes de Coura, do Primavera Sound, do Bons Sons, do Milhões de Festa, o Boom que tem um espaço incrível, o antigo Ilha do Ermal, o Vilar de Mouros! Tantos festivais que se passam em sítios diferentes e que a nível geográfico e paisagístico são tão interessantes, é algo que de facto temos muita sorte! Estamos no meio da natureza ou na praia, o próprio festival está envolvido numa moldura muito bonita, interessante e confortável. Acho que o nosso país por ser tão bonito acaba por garantir que existem muitos festivais com cenários interessantes sobre todos os pontos de vista.

 

(A): O que gostava de ver evoluir nos festivais portugueses?

(C): Gostava de ver mais bandas de rap nos cartazes. Apesar de estarmos a assistir a progressos. Numa escola ou numa faculdade a maior parte dos estudantes ouvem rap e estão a par do que é o rap nacional, não apenas o americano, e não vemos esse público representado nos festivais proporcionalmente. Não existe a presença que o rap tem nos auscultadores dos adolescentes e portanto acho que, apesar de estarmos assistir a uma abertura – falando por mim que estive em muitos festivais e outros rappers – acho que ainda existe um grande número de rappers que têm público, com muitos views no youtube, muitos seguidores nas redes sociais e que depois nunca chegam a conseguir entrar no circuito mais profissional de concertos. Gostava muito de ver mais abertura, não apenas aos rappers nacionais. Justiça seja feita, o festival sudoeste tem tido sempre bastante abertura a rappers de âmbito nacional mas também no ano em que levou o Kanye West e o Snoop Dogg à Zambujeira foi uma enchente! No ano passado com o Kendrick Lamar no Primavera foi outra enchente! Quando se aposta no rap nacional e internacional a verdade é que as pessoas vão aos festivais! Gostava de ver isso a acontecer mais vezes, acho que seria uma vitória não só para o hip hop como para o mercado dos festivais em Portugal, como acontece noutros países.

Outra coisa que gostava de ver melhorada nos nossos festivais são as questões ecológicas. Alguns festivais dão o exemplo, nunca fui ao Boom mas acho que é um festival que lida muito bem com a sua própria pegada ecológica e já estive noutros festivais em que as preocupações são claras e existe um estímulo para que as pessoas respeitem, por exemplo no Bons Sons em que cada um tem a sua caneca para evitar desperdícios. Acho que muito trabalho ainda podia ser feito, sobretudo nos grandes festivais, em que uma pessoa dá por si no meio de milhares de copos, de lixo, de merchandising. Há um exagero de merchandising, as marcas dão brindes e a certa altura é um excesso de lixo e de plástico por todo o lado. Temos paisagens tão bonitas, festivais integrados em sítios tão especiais, que é uma pena sentir que depois o festival deixa um rasto de lixo e destruição, era importante criar mais consciência de que nos cabe a todos ter mais cuidado com isso.

 

(A): Tem algum festival de sonho, para assistir ou atuar?

(C): Não tenho nenhum para selecionar, depende muito dos cartazes… Claro que existem os históricos, mas depende do cartaz. Gostava de ter oportunidade de passar por todos os festivais portugueses, e ainda me faltam alguns! (risos) Gostava muito de atuar no… Não vou dizer, não faço selecções! (risos) Nos internacionais, se algum dia tiver de ir vou toda contente, mas não tenho muito essa ambição! No ano passado toquei em Paredes de Coura e uma das coisas que disse em palco foi: “nunca pensei tocar neste palco” - e é verdade! Nunca pensei estar ali, não faço essas projeções. Claro que gostava de percorrer os festivais do país porque a cada um a que vou sinto que a minha música chega mais longe, e depois porque acho que é sempre uma experiência diferente. Gostava mesmo de ir a todos e não estou a ser politicamente correta!

 

(A): Qual é a ideia que tem dos festivais em que um artista faz a curadoria ou é mesmo que idealiza o festival? Algum dia gostava de se envolver num projecto desses?

(C): Acho giro! Sempre que fui ver festivais com palcos que têm a curadoria de artistas acabo por descobrir projetos novos que estão lá pelo interesse musical e não por atraírem tanto público. No ponto de vista dos festivais existe sempre a preocupação em ter artistas que atraem público e acho que quando é um artista a escolher as bandas talvez essa não seja primeira prioridade, mas de dar espaço a artistas que têm qualidade para estar ali. É ver um pouco dos dois mundos, acaba por dar mais diversidade e mostrar coisas que não são tão visíveis. Se um dia gostava de estar envolvida num desses projetos? Acho que sim, seria uma experiência muito engraçada. Não tenho grande experiência com programação, nem nunca quis ser programadora, mas acho são experiências muito interessantes e que se um dia me propuserem aceitarei!

 

(A): Uma associação como a Aporfest pode trazer benefícios à indústria dos festivais de música?

(C): Nas associações profissionais em que as pessoas da mesma atividade económica colaboram e competem, quando entram em diálogo e criam espaços de cooperação, debate e defesa dos seus interesses, normalmente é porque existe essa necessidade e interesse em comum. Acho que na teoria pode ser muito útil, mas acho que não estou na posição certa para avaliar esse impacto, porque não estou por dentro dos meandros do que é o mercado dos festivais, a não ser do ponto de vista dos músicos e do público. Acho que a Aporfest vive mais no ponto de vista de quem organiza e promove os festivais que do meu lado. Mas acho que sim, a cooperação entre pares traz bons frutos. 

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