A maturidade cultural da música portuguesa, por Capicua

Atuou em 15 festivais em 2014, incluindo um no Brasil, e foi uma das figuras de referência do ano na música portuguesa. Está nomeada para o prémio personalidade do ano da Aporfest. Em 2015, Capicua volta à estrada com uma nova digressão e surpresas pelo caminho. Falou connosco sobre o estado da indústria dos festivais, da presença do hip hop neles, e da importância da música ao vivo para o mercado da música. O reconhecimento vivido hoje pela música portuguesa e algumas das suas motivações como artista são outros temas que marcam esta conversa.


Capicua

Tiago Fortuna – Aporfest (A): Gosta de festivais?

Capicua (C): Gosto sim! Desde miúda que vou a festivais, desde 98/99 que costumo ir a festivais de verão. Gosto de concertos em geral, mas gosto de festivais pelo ambiente! Ultimamente tenho menos paciência do que quando era mais nova, mas gosto de festivais! (risos)


(A): Neste momento ouve-se muito dizer que os festivais são um fenómeno? Qual é a sua opinião?

(C): Que têm crescido em número, tamanho e variedade em Portugal. Acho que de facto estamos a passar por um crescimento exponencial dos festivais de verão, e não só, inverno também. Cada vez existe mais variedade e afluência de público e tenho assistido a isso com algum interesse porque acho que os festivais de música portuguesa têm crescido, os festivais de música em geral também têm crescido e apostado mais em bandas portuguesas, e a prova de que as pessoas continuam a ir e a encher os festivais é evidente. Não sei se a palavra fenómeno é a melhor, mas acho que estamos a assistir a um boom em todos os sentidos: qualidade, variedade, público.


(A): Vivemos numa época de valorização da música portuguesa?

(C): Sim. Acho que em primeiro lugar vivemos numa época de grande qualidade da música portuguesa e depois de valorização, podia dar-se o caso de termos boa música e não ser valorizada. Mas acho que as duas coisas acontecem e tenho muito orgulho de fazer parte deste momento. Depois de longos anos em que não era cool cantar em português, tudo o que vinha de fora era melhor que o que se fazia aqui acho que hoje em dia já não existe esta ideia, vê-se mais bandas a cantar em português – também em inglês - e sobretudo a fazerem boa música e serem valorizadas independentemente da sua origem geográfica e às vezes também especialmente por serem portuguesas, o que eu acho especialmente interessante. Acho que este ano nos festivais tivemos prova viva. Atuei no Bons Sons, Fusing e Sol da Caparica – que também tendo alguns cantores angolanos está dentro do espectro da lusofonia – em três dias seguidos e eram festivais com cartazes muito interessantes, bastante participados, todos provam esta valorização do espectro da música mais comercial à mais tradicional ou à alternativa, há muito espaço para ouvir música portuguesa.


(A): O que se passava até aqui, porque havia resistência?

(C): Não sei… Pode ser um conjunto de factores… Acho que é preciso as pessoas habituarem-se e baixarem as suas defesas em relação a algumas questões, neste caso de ouvir cantar em português. A partir do 25 de Abril Portugal viveu um período dos anos 80 a ouvir ainda muita música portuguesa, depois nos anos 90 abriu-se ao mercado da música anglo-saxónica e aquilo que era a cultura de massas, a cultura popular, abriu-se à europa, ao mundo e a influências. O que até aí não tinha acontecido por razões históricas e óbvias. Acho que com essa abertura houve algum deslumbramento. Da mesma forma que nessa altura tivemos esse boom, acho que vivemos agora numa época de maturidade cultural pós 25 de Abril, em que estamos abertos ao mundo e simultaneamente a valorizar aquilo que é português.


(A): Como é estimulada a oferta e procura da música nos festivais? Como se posicionam as forças do público e da indústria?

(C): É consensual que estamos a assistir a um momento de efervescência da música portuguesa em que as rádios – que passam a música portuguesa em primeiro lugar – estimulam as pessoas a estarem mais abertas ao mercado musical e a procurarem o que ouvem, é normal que isso se reflita na programação e na afluência aos festivais. Muitos festivais formam opinião e são uma forma de mostrar o que se está a fazer nesse momento. Por um lado acho que é esse interesse e esse acompanhamento feito ao longo do ano que faz as pessoas verem um nome no cartaz e quererem ir ver o concerto. Ao mesmo tempo, os festivais são uma montra do que se faz, talvez eu vá a um festival porque quero ir ver a Gisela João – por exemplo – e até ouço Noiserv que não conhecia e passo a gostar. É um bocadinho as duas coisas. Vamos atraídos pelos músicos que já acompanhamos e a grande vantagem dos festivais é ser uma montra de muitas coisas e acabamos por conhecer novas coisas. Para os músicos também é bom porque se lá vamos para ouvir outras bandas, que não nós, temos oportunidade de conhecer nova música. É um fenómeno que tem muitas dimensões, muitos fluxos, e não pode ser visto como 1+1 = 2.

A internet que se dizia ser o maior inimigo da música, no caso dos concertos não é. As pessoas não compram tantos discos mas acaba por se criar muito mais partilha de música nas redes sociais e partilha de informação entre músicos e artistas. Isso também anima o mercado dos concertos. As pessoas acompanham a agenda do artista no facebook e outras redes sociais e ao longo do ano vão ver os concertos. A prova da internet é importante no meio disto tudo e o fortíssimo marketing que os festivais fazem nas redes sociais e não apenas nos mupis, televisão etc... Acontece cada vez mais através do marketing digital.


(A): Quais são as grandes diferenças que sente entre um concerto numa sala ou num festival? O que a estimula mais em cada uma delas?