ENTREVISTA: A cenografia e arquitetura dos festivais de música em Portugal, por Miriam do Carmo e Pedro Carvalho (Transform-arte)

27/07/2015

É de conhecimento geral que os festivais são uma experiência sensorial. A música vive no centro mas a oferta é vasta e a competitividade afirma-se cada vez mais pela experiência criada no festival. Quem é capaz de criar mais estímulos? Que papel tem a cenografia e a arquitetura nesta equação? Pedro Carvalho e Miriam do Carmo falam-nos sobre o desenvolvimento da cenografia e arquitetura nos festivais portugueses, são responsáveis pela cenografia do Reverence Valada e do Sol da Caparica assim como da execução do projecto cenográfico do Alive. Mas o seu currículo é vasto e trabalharam também diretamente com artistas como os GNR, o projeto MEO LikeMusic, ou festivais turcos e italianos. Afirmam que a cenografia é um dos campos onde os festivais portugueses podem crescer. 

 

 

 APORFEST – Tiago Fortuna (A): O que representa, no vosso entender, a cenografia num festival?

Miriam do Carmo (MC): Normalmente entende-se a cenografia como algo pertencente ao Teatro, à Ópera e às Artes de Palco no seu sentido mais clássico e lato.No nosso entender a cenografia para festivais prende-se mais com conceitos de Design e de Arquitetura e até mesmo com o do Urbanismo... Quando nos referimos, por exemplo, ao próprio layout/disposição e distribuição do espaço dentro dos festivais. O que condiciona imenso, senão totalmente a experiência do dos festivaleiros.

 

 

 

 (A):É parte da experiência?

Pedro Carvalho (PC): Claro que a cenografia é parte da experiência de fruição do festival, mas atua também como agente de comunicação da própria identidade do festival. As pessoas/público gostam de se identificar com algo e também de se sentirem maravilhadas. Logo, pensamos que sim, absolutamente a cenografia é uma parte integrante e estruturante da experiência de qualquer festival ou evento a acontecer numa escala macro, para acolher multidões, de uma forma agradável e urbana, sendo intuitiva e prazenteira para todos.

 

 

(A): Como surgiu a oportunidade da Transform-Arte trabalhar em festivais de música?

(MC): Um dos criadores da Transform-Arte, antes desta existir, já trabalhava em produção, nomeadamente na de festivais de música. Logo, foi um percurso bastante natural no processo evolutivo da Transform-Arte.

 

 

(A): De que forma trabalham a cenografia conceptualmente de acordo com a necessidade dos clientes?

(PC): O cliente tem sempre um papel primordial e condicionante na criação de qualquer projeto. Tentamos sempre ir de acordo com aquilo que o nosso cliente quer expressar e encaminhamo-lo no sentido de criarmos algo em conjunto para um público, que no final é o verdadeiro usufruidor do nosso trabalho conjunto. A criatividade é estimulada partindo sempre da premissa do trabalho.

 

 

(A): Encontramos sobretudo o uso de tecido, é um material sobre o qual têm preferência? Trabalham com que outro tipo de materiais?

(MC): Claramente, o tecido elástico é o nosso material de eleição. No entanto estendemos a nossa técnica ao uso de outros materiais como a madeira, o mdf, o pvc ou mesmo o poliestireno.

 

 

(A): É possível falar-nos um pouco sobre o tipo de técnicas que usam e como as executam?

(PC): A nossa equipa tem várias valências técnicas que vão desde o Design de Moda ao Design de Equipamento e à Arquitetura.Usamos sempre uma metodologia que começa no Design, éo fio condutor do nosso trabalho enquanto empresa que intervém em espaços e cria objetos para fruição e maravilhamento do público.Usamos técnicas como a modelagem tridimensional e bidimensional em vários suportes. Somos uma equipa bastante autónoma e móvel, que cria, executa e instala as suas peças.

 

 

(A): Que referências cenográficas têm internacionalmente?

(MC): Uma das nossa referências a nível mundial é o festival “Burning Man”, em SaltLake, nos EUA. A nível nacional, mas também à escala global, o festival “Boom”, que decorre em Idanha-A-Nova, bianualmente. Um dos fundadores da Transform-Arte é também um dos co-fundadores do Boom Festival. De resto, as nossas influências prendem-se sobretudo com o imaginário, a nível global, do Cinema, da Arquitetura, da Banda desenhada, da Animação, da Fotografia, do Design e da Música, claro!

 

 

(A): Temos espaço para crescer no campo da cenografia nos festivais portugueses?
(PC): Existe seguramenteum espaço e é notável o fraco desenvolvimento a nível cenográfico nos festivais portugueses em geral, apesar de nos últimos anos termos assistido a algum desenvolvimento positivo nesta área. Portugal é profícuo em festivais de música e não só, mas peca muito pela simplificação.O excesso de metal e estrutura à vista, não dando vasão à capacidade física deste suporte já instalado e que se encontra despido de algo que não parafernália técnica de luz e som. O que se torna um desperdício de recursos físicos, técnicos e humanos. Seria muito mais produtivo utilizar todas estas estruturas necessariamente instaladas e dar-lhes ainda mais deslumbramento!

 

 

(A): Porque é que é um investimento que vale a pena?

(MC): A experiência do público dos festivais é muito condicionada pelo espaço que o rodeia. O sucesso de um festival poder-se-á avaliar pela sua capacidade de envolver as pessoas num ambiente que lhes proporciona prazer sensorial. É nesse capítulo que a cenografia desempenha um papel crucial.

 

 

(A): A APORFEST pode trazer benefício à indústria dos festivais de música?

(PC): Sem dúvida que sim, a APORFEST traz um enorme benefício a todos os níveis para a indústria dos festivais de música. Num mundo com tanta informação a APORFEST vem unificar e aproximar os profissionais de um setor cuja relevância na economia nacional se vem afirmando ano após ano. Associações destas propiciam um meio mais produtivo, melhor informado, profissional e profissionalizante!

 

 

 

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