O festival, mais antigo, em atividade, de Portugal. Entrevista: Hélvio Braga (Festival Maré de Agosto)

06/04/2016

 

Todos falamos (ou somos confrontados) com o início da história dos festivais de música em Portugal que ficou perpetuada pelo Vilar de Mouros e Cascais Jazz, em 1971. Na atualidade, e com maior profissionalismo, o festival com mais edições em Portugal, situa-se na ilha de Sta. Maria, nos Açores. Perante muitas novidades já confirmadas para a edição de 2016, decidimos falar com um dos seus responsáveis.

 

 

APORFEST: O Festival Maré de Agosto é um complemento da associação com o mesmo nome. São o festival com mais edições consecutivas em Portugal. Não sentem que vos falta reconhecimento quanto a esse feito?
Hélvio Braga: Penso que está tudo relacionado com o contexto em que cada festival se insere, e por isso não se trata de falta de reconhecimento, mas sim uma questão de menor visibilidade, relativamente a outros festivais de maior dimensão que decorrem no continente e que por essa forma tem a possibilidade de abranger um público-alvo mais vasto e consequentemente ter maior exposição.
Quando se fala em festivais de música em Portugal, os primeiros nomes que nos ocorrem são naturalmente os nomes dos grandes festivais, organizados por promotores privados e que se destinam a grandes massas de público. Mais do que a sua longevidade ou número de edições, reconhecemos imediatamente a imagem das empresas de grande dimensão nacional e internacional, que encontram nesses eventos um parceiro ideal para divulgarem os seus serviços e produtos, através de fortes campanhas de comunicação.
Embora não tenhamos essa a visibilidade, temos a perfeita noção que nos Açores, o trabalho da Associação tem vindo a ser reconhecido, em resultado da importância cultural, económica e social que o Festival Maré de Agosto assume perante a ilha e perante a região. A prova desse reconhecimento expressa-se por exemplo no Estatuto de Entidade de Utilidade Pública da Associação, oficialmente declarado em 2002, ou mais recentemente com a atribuição da Insígnia Autonómica de Mérito Cívico, por parte Região Autónoma dos Açores.
É uma realidade completamente distinta, que se resume no facto de sermos uma Associação Cultural sem fins lucrativos, que entre outras atividades, promove há 31 anos consecutivos um festival de World Music, em pleno Atlântico, numa ilha cuja população ronda os 5500 habitantes. Com todas as dificuldades que daí se possam imaginar, o facto de sermos o mais antigo festival de música português em continuidade, mais de que um feito, é sobretudo um motivo de orgulho e motivação para a Associação, para a população de Santa Maria, para todos os que se identificam com o festival e para os nossos parceiros, que muitos deles estão connosco desde da primeira edição.


Que novidades podemos esperar para a edição de 2016 do festival? O que está já a gerar mais impacto?
Neste momento estamos a trabalhar no sentido de apresentarmos algumas novidades no formato do festival, entre as quais a eventual reativação do Palco Castelo, o que não está diretamente dependente de nós, mas estamos a desenvolver todos os esforços possíveis. Trata-se de um segundo palco situado num local emblemático da Praia Formosa, e que no passado funcionou como um espaço de oportunidades para bandas locais e outros tipos de projetos musicais.
Além disso, o que neste momento está já a causar o primeiro impacto, entre os nossos festivaleiros foram as confirmações já anunciadas para o cartaz de 2016, com nomes como Carminho, O Rappa, Fatoumata Diawara e DJ Patife. No próximos dias contamos apresentar mais alguns nomes.


Como é fazer um festival que tem sempre uma equipa renovada e diferentes a organizá-lo em cada ano (ou 2/3 anos), em virtude das eleições realizadas na associação?
A Associação Cultural Maré de Agosto, como qualquer outra tem estatutos próprios, e que no nosso caso definem a realização bianual de atos eleitorais, nos quais qualquer sócio pode apresentar uma lista concorrente. No entanto, mesmo com a recente renovação da atual direção, nos mais de 30 anos de existência, a Associação não conheceu mais do que meia dezena de direções. Cada vez mais, existe uma grande dificuldade em atrair sócios para integrarem em regime de voluntariado a missão organizativa de todas as atividades desenvolvidas pela Associação. Esta dificuldade é uma realidade em todo o país, mas agrava-se fortemente quando falamos num universo de recrutamento de cerca oitocentos sócios efetivos, e numa ilha com pouco mais de cinco mil habitantes.
Apesar das dificuldades, o sucesso da longevidade e continuidade do Festival Maré de Agosto, está na capacidade que todas as anteriores direções tiveram, em incutir aos seus sucessores a responsabilidade de promover nos Açores, um festival de música único no país e que tem sido, palco de experiências, de partilha e de enriquecimento cultural.
Acreditamos que independentemente de quem o organiza festival, o mais importante é que esteja sempre presente a missão continuar a trazer a arte do mundo à Praia Formosa, de uma forma sustentada e ciente da nossa realidade, proporcionando aos açorianos a oportunidade de assistirem a espetáculos que dificilmente presenciariam noutro local da região.


A abertura do arquipélago dos Açores às viagens low cost, afetou positivamente a ilha de Sta. Maria e o vosso festival?
Não há dúvidas que a abertura do arquipélago dos Açores às companhias aéreas low cost afetou positivamente todas as ilhas e Santa Maria não foi exceção. O setor turístico dos Açores cresceu e está a enfrentar novos desafios. Neste momento, penso que estamos ainda numa fase de adaptação ao novo modelo de transporte aéreo que veio considerar as nove ilhas dos Açores como um único destino, independentemente da ilha que pretendemos visitar.
Para quem vive fora da região há ainda algum desconhecimento sobre o funcionamento deste modelo de transporte. Há que salientar que apesar destes voos serem realizados apenas para a maior ilha dos Açores (São Miguel), é possível chegar a qualquer uma das outras ilhas de forma gratuita, através dos encaminhamentos nos voos inter ilhas.
E é precisamente nesse ponto, que as ilhas mais pequenas, como Santa Maria sofrem algumas dificuldades. Mesmo estando apenas a 15 minutos de voo da vizinha ilha de São Miguel, para nós organização, é por vezes difícil colocar todos os artistas e técnicos na ilha, por falta de lugares nas ligações inter-ilhas (realizadas em aviões de menor capacidade), portanto deverá ser certamente também difícil, a quem nos pretende visitar nas datas do festival, conseguir voos para chegar a Santa Maria.
É uma situação que deverá ser ultrapassada num futuro próximo, quando a adaptação a este novo modelo estiver concluída, mas ainda assim e mesmo nas ilhas mais pequenas começam-se a ver alguns sinais positivos.

 

Como cativam público externo - fora da ilha de Sta. Maria e mesmo de Portugal?
Pelas razões que apontei anteriormente, o nosso público prioritário e que todos os anos tentamos cativar, são sobretudo os jovens das outras ilhas dos Açores que facilmente conseguem chegar a Santa Maria através das ligações marítimas inter-ilhas, sem terem necessidade de recorrerem às ligações aéreas.
O festival está atualmente concebido conforme as nossas capacidades logísticas e de acordo com a atual capacidade de resposta da ilha. Não há muita mais margem de crescimento, pelo que mais do que cativar o público externo, a nossa prioridade centra-se em bem receber os que nos visitam habitualmente e sabem de antemão que em Santa Maria vão encontrar um evento de grande qualidade.
No entanto, e sempre que possível além das campanhas internas de promoção, tentamos divulgar o nome do festival o mais longe possível, quer seja através dos nossos parceiros, quer seja por exemplo através a nossa participação em todas as edições do Talkfest e nas mais recentes edições da BTL de Lisboa, onde marcamos presença regular por forma promover o festival junto de potenciais visitantes vindos do estrangeiro.


O que acham que a APORFEST tem desempenhado pela indústria dos festivais em Portugal?O surgimento da mesma foi sem dúvida um importante contributo para o fortalecimento do setor da indústria dos festivais de música no nosso país. Se habitualmente se diz que juntos somos mais fortes, a APORFEST veio precisamente confirmar isso.
Pelo trabalho realizado até ao momento, em diversas áreas de importância para os festivais, e pelo contributo que poderão continuar a desempenhar na evolução desta indústria em Portugal, creio que no futuro se assumirá um papel fundamental na defesa dos interesses de todos os seus associados. Sobretudo o que desejamos é que possam continuar o excelente trabalho e que consigam certamente estar à altura de novos desafios que o futuro nos reserva.

 

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