A saúde como fator de análise e excelência para os festivais. Entrevista Ricardo Mexia

25/05/2016

 

No âmbito de mais uma edição do Rock in Rio Lisboa que possui um departamento próprio dedicado aos cuidados de saúde e apoio médico, falámos com Ricardo Mexia, médico presente não só neste festival mas com ação interveniente noutros festivais portugueses e ainda Médico de Saúde Pública do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional da Saúde Doutor Ricardo Jorge.

 

APORFEST: Realiza a coordenação da saúde e apoio médico do Rock in Rio Lisboa desde 2008. Como tem sido o desenvolvimento deste trabalho ao longo das várias edições?

Ricardo Mexia: Tem sido uma experiência muito gratificante, em que temos também beneficiado da experiência internacional do Festival, com as nossas edições de Lisboa, Rio de Janeiro, Las Vegas e Madrid. É muito curioso como o “mesmo” evento tem especificidades tão grandes conforme os diferentes países (e continentes). As necessidades de saúde e o enquadramento normativo de cada país são diferentes, mas na prática conseguimos entregar um nível de serviço elevado, independentemente do local. Isto pode derivar do facto de termos uma equipa de produção muito coesa, que faz com que seja muito fácil transferir a capacidade organizativa para diferentes contextos. Mas voltando à questão inicial de facto temos vindo numa melhoria contínua da qualidade. Apesar de ter começado a coordenar esta área na edição de Lisboa em 2008, já tinha colaborado com a equipa da saúde como voluntário em 2006 e portanto pude acompanhar essa evolução ao longo destes 10 anos. Em cada edição fomos introduzindo algumas melhorias, em resposta às necessidades que fomos identificando. A título de exemplo, uma das novidades deste ano é a criação de um espaço para estabilização e atendimento das ocorrências de saúde que sejam retiradas da frente do palco Mundo. Com a colaboração da nossa engenharia, foi possível integrar este espaço na estrutura do palco, melhorando muito a operacionalidade e qualidade de prestação nesta zona concreta do evento.

 

Que diferenças existem, nesta área, neste festival e nos restantes em Portugal? 

Uma das especificidades do Rock in Rio é ter precisamente uma equipa dedicada à saúde. A maioria dos eventos tem uma subcontratação da prestação de cuidados de saúde (o que faz todo o sentido, pois é um tipo de serviço muito específico e que exige profissionais diferenciados e com experiência). Mas com profissionais dentro da produção especificamente dedicados à área da saúde, penso que é uma situação ímpar. Na prática somos dois médicos e duas enfermeiras, coordenando a componente de prestação de cuidados (em que procuramos um parceiro ou subcontratamos, à semelhança da maioria dos outros festivais) mas também toda a área da saúde pública (incluindo a vigilância epidemiológica e a componente higio-sanitária). Se a primeira área pode ser considerada como um dado adquirido em quase todos os eventos, a segunda já não é tão habitual, mas acrescenta um nível de preocupação adicional com a segurança e a qualidade da experiência. Inclui, entre outras tarefas, a colaboração com todos os nossos parceiros que fornecem alimentos ou bebidas para assegurar que todos os procedimentos cumprem os requisitos legais e de segurança alimentar, o controlo da qualidade das águas (de consumo e de uso recreativo, pois este ano temos novamente uma piscina) ou a monitorização permanente dos locais de maior concentração de pessoas (que pode motivar, por exemplo, a distribuição de água gratuitamente na frente de palco).

 

Tem experiências de trabalho noutros festivais de música como o Boom Festival, correto? Existe uma forma de estandardização de procedimentos para atuação nesta tipologia de eventos ou cada evento tem uma atuação customizada?

Num outro papel e enquanto Médico de Saúde Pública e Epidemiologista do Instituto Ricardo Jorge, temos realizado a vigilância epidemiológica de vários eventos de massas, em que se destacam a experiência do Boom, do Andanças ou ainda do Carnaval de Torres Vedras. O nosso papel é desenvolver a capacidade de fazer uma análise em tempo útil das ocorrências com impacto na saúde dos eventos de massas (incluindo os participantes, os trabalhadores/voluntários, e os residentes da comunidade onde decorre). E trabalhamos com os diferentes contextos de cada festival, portanto há uma diversidade grande no modelo de prestação de cuidados, nos instrumentos de recolha de dados e naturalmente na capacidade de resposta de cada evento.

O nosso objectivo no curto/médio prazo é disponibilizar uma ferramenta “chave-na-mão” que qualquer produtor/promotor possa implementar e que permita o registo sistemático dos dados e que através de algumas visualizações simples permita monitorizar o que vai acontecendo, idealmente em tempo real. Isso permitirá a nossa colaboração num número muito maior de eventos, com a capacidade de contribuir para a análise e detecção precoce de qualquer problema.

 

O "estado da arte" a nível de cuidados médicos existentes e preventivos nos Festivais de Música está ao nível do que encontramos no centro da Europa ou Estados Unidos?

Apesar de ter conhecimento directo limitado, as publicações científicas apontam nesse sentido. Ou seja, o trabalho que fazemos e os níveis de prestação de cuidados são muito semelhantes e a generalidade dos eventos em Portugal tem um nível de serviço elevado. Isto pode ter a ver com a existência de profissionais qualificados e também uma rede de autoridades de saúde que zela pela saúde e segurança das comunidades. Tive oportunidade de visitar e conhecer mais em detalhe todo o sistema de saúde implementado em Glastonbury e os eventos de maior dimensão em Portugal (e, portanto, comparáveis) nada ficam a dever aquele sistema.

Contudo, em Portugal, há ainda um vazio normativo sobre os requisitos que cada evento deve disponibilizar. Existe um documento da Organização Mundial da Saúde, em que tive oportunidade de colaborar, que define as prioridades e os requisitos mínimos para planear um evento de massas. Cumprimos grande parte deles, mas sem enquadramento legal é difícil generalizar a sua implementação. Por outro lado, é importante que haja cada vez mais trabalho e produção científica neste área, para que todos possam compreender a relevância de algumas opções.

 

Nos últimos anos, festivais de cariz eletrónico internacional têm tido diversos problemas com o público, a nível de consumo de drogas, álcool e fluxos excecionais de público (e.g. esmagamento; entradas sem bilhete). Em Portugal estes problemas não são acentuados - está a ser um bom trabalho preventivo e de comunicação entre as entidades médicas e os promotores ou somos mesmos um povo de "brandos costumes"?

De facto, no âmbito da vigilância epidemiológica que fazemos, os problemas de saúde relacionados com os consumos não são muito prevalentes, apesar de existentes e identificados. O nosso enquadramento normativo no que toca a estes aspectos é considerado excepcional e usado muitas vezes como caso de sucesso a nível internacional. Apesar disto, temos ainda muita margem de progressão e o papel dos diversos intervenientes tem sido determinante nesse percurso (refiro-me ao papel dos produtores, de algumas ONG, das forças de segurança e do SICAD, por exemplo). E não temos história de eventos de massas em Portugal que tenha havido problemas de elevada magnitude pela grande aglomeração de pessoas. Esta situação pode ter a ver com um melhor planeamento dos espaços e também porque na prática estamos a falar de eventos de média dimensão e com um bom controlo de acessos. Infelizmente, quando não há controlo de acessos tem havido alguns excessos, principalmente quando associados a comemorações desportivas.

 

De que forma a APORFEST poderá ser um elemento de apoio nesta ligação prestadores/consultoria serviços saúde e promotores, assim como a ANMSP - Associação Nacional de Médicos de Saúde Publica?

Penso que a APORFEST pode desempenhar (e já o tem feito) um papel fundamental na divulgação das boas práticas em festivais e também funcionar como catalisador das interacções entre os diversos parceiros. Isso pode acontecer no contexto do Talkfest, mas também ao longo do ano, quer através da newsletter, quer através da divulgação específica de algumas iniciativas de formação que tem vindo a disponibilizar.

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