A saúde como fator de análise e excelência para os festivais. Entrevista Ricardo Mexia


No âmbito de mais uma edição do Rock in Rio Lisboa que possui um departamento próprio dedicado aos cuidados de saúde e apoio médico, falámos com Ricardo Mexia, médico presente não só neste festival mas com ação interveniente noutros festivais portugueses e ainda Médico de Saúde Pública do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional da Saúde Doutor Ricardo Jorge.


APORFEST: Realiza a coordenação da saúde e apoio médico do Rock in Rio Lisboa desde 2008. Como tem sido o desenvolvimento deste trabalho ao longo das várias edições?

Ricardo Mexia: Tem sido uma experiência muito gratificante, em que temos também beneficiado da experiência internacional do Festival, com as nossas edições de Lisboa, Rio de Janeiro, Las Vegas e Madrid. É muito curioso como o “mesmo” evento tem especificidades tão grandes conforme os diferentes países (e continentes). As necessidades de saúde e o enquadramento normativo de cada país são diferentes, mas na prática conseguimos entregar um nível de serviço elevado, independentemente do local. Isto pode derivar do facto de termos uma equipa de produção muito coesa, que faz com que seja muito fácil transferir a capacidade organizativa para diferentes contextos. Mas voltando à questão inicial de facto temos vindo numa melhoria contínua da qualidade. Apesar de ter começado a coordenar esta área na edição de Lisboa em 2008, já tinha colaborado com a equipa da saúde como voluntário em 2006 e portanto pude acompanhar essa evolução ao longo destes 10 anos. Em cada edição fomos introduzindo algumas melhorias, em resposta às necessidades que fomos identificando. A título de exemplo, uma das novidades deste ano é a criação de um espaço para estabilização e atendimento das ocorrências de saúde que sejam retiradas da frente do palco Mundo. Com a colaboração da nossa engenharia, foi possível integrar este espaço na estrutura do palco, melhorando muito a operacionalidade e qualidade de prestação nesta zona concreta do evento.


Que diferenças existem, nesta área, neste festival e nos restantes em Portugal?

Uma das especificidades do Rock in Rio é ter precisamente uma equipa dedicada à saúde. A maioria dos eventos tem uma subcontratação da prestação de cuidados de saúde (o que faz todo o sentido, pois é um tipo de serviço muito específico e que exige profissionais diferenciados e com experiência). Mas com profissionais dentro da produção especificamente dedicados à área da saúde, penso que é uma situação ímpar. Na prática somos dois médicos e duas enfermeiras, coordenando a componente de prestação de cuidados (em que procuramos um parceiro ou subcontratamos, à semelhança da maioria dos outros festivais) mas também toda a área da saúde pública (incluindo a vigilância epidemiológica e a componente higio-sanitária). Se a primeira área pode ser considerada como um dado adquirido em quase todos os eventos, a segunda já não é tão habitual, mas acrescenta um nível de preocupação adicional com a segurança e a qualidade da experiência. Inclui, entre outras tarefas, a colaboração com todos os nossos parceiros que fornecem alimentos ou bebidas para assegurar que todos os procedimentos cumprem os requisitos legais e de segurança alimentar, o controlo da qualidade das águas (de consumo e de uso recreativo, pois este ano temos novamente uma piscina) ou a monitorização permanente dos locais de maior concentração de pessoas (que pode motivar, por exemplo, a distribuição de água gratuitamente na frente de palco).


Tem experiências de trabalho noutros festivais de música como o Boom Festival, correto? Existe uma forma de estandardização de procedimentos para atuação nesta tipologia de eventos ou cada evento tem uma atuação customizada?