À 15ª é de vez, no Sons de Vez. Entrevista com Nuno Soares (diretor)

31/01/2017

O Sons de Vez tem já um lugar na história dos festivais de música em Portugal. É um festival de inverno, de cariz indoor, mas tem perpetuado a história da música portuguesa com a presença, a cada edição, de artistas em diferentes estádios e que podem servir como ponto de referência para a evolução dos mesmos. São 15 edições ou 14 anos, desde o virar do século que pretendem demonstrar que com um conceito próprio, forte e corporativista é possível ter música e público mesmo fora dos grandes centros urbanos. Falámos com Nuno Soares, diretor da Casa das Artes de Arco de Valdevez e uma das personalidades fundamentais para o evento.

 

APORFEST: São já quinze, as edições do Sons de Vez que animam com diferentes noites de concertos o Sons de Vez. Em que consiste o vosso conceito?

Nuno Soares: O conceito do Sons é de profundo intimismo, aproveitando as características do Auditório da Casa das Artes de Arcos de Valdevez, limitado a 232 lugares, e onde a grande proximidade do público aos artistas, afastados na primeira fila por pouco mais que um metro e meio, cria atmosferas únicas e irrepetíveis. A grande diversidade de registos e sensibilidades musicais, entre-cruzando nomes consolidados com novos nomes, é igualmente uma marca identitária do Sons, sendo o único evento do género em Portugal, uma vez que assume o conceito de mostra, ao estabelecer concertos em todos os fins de semana de fevereiro e março, em detrimento do mega espaço e do fenómeno “tudo em um” que caracterizam os grandes eventos de verão.

Na base do Sons está também uma outra filosofia: colocar num concelho e numa região do interior do país uma opção cultural diferenciadora, assumindo a descentralização como vetor essencial de existência, e direito, do global da população portuguesa.

 

Como foi a evolução do mesmo ao longo dos anos?

De insistência, perseverança e muita dedicação; é sempre mais difícil subir a corrente. Quando iniciámos o projeto do Sons, a Casa das Artes arcuense, também ela em fase de abertura, era o único espaço no distrito de Viana do Castelo que ousava programar em todos os finais de semana. Apesar da forte componente identitária e cultural do Alto-Minho, a região estava muito focada na tradição e nos festivais de verão; urgia por tal estabelecer novas dinâmicas e desafios; o Sons veio nesse propósito de quebrar algumas regras. Passadas as naturais barreiras de afirmação, mais amplificadas quando se está a 400 km de Lisboa, o Sons foi colhendo simpatias e reconhecimento do publico e dos próprios projetos e artistas, pelo que hoje é muito natural que o Sons seja o “primeiro festival do ano”, onde já ninguém se importa de tocar e assistir.

 

O que podemos esperar de novo para 2017 e quais os pontos que destaca?

Podemos esperar muita e muita música. E, como sempre, cruzamento de gente diferente e de gerações diferentes. Como demos nota no texto promocional da edição 2017,  “da homenagem aos mais de 35 anos de carreira dos Jarojupe e dos UHF, passando pela igual maturidade de Pedro Abrunhosa, as palavras e sons do “cantautor” Miguel Araújo, a “alternatividade” de Bezegol ou dos Fado Violado, a juventude irrequieta de Diogo Piçarra, o rock cru dos Bed Legs e The Twist Conection, completado pela urbanidade latente e madura do Hip-Hop de Maze e dos joviais Chillange e Abyss”, todos contribuem, em mais um ano, para a história singular do Sons e para a história dos últimos 15 anos da música portuguesa.

 

Como atraem o público fora de Arcos de Valdevez e fora de Portugal?

Temos tido a sorte de contar com muitos amigos e instituições que, de forma desinteressada, têm potenciado a visibilidade exterior do Sons. Uma delas a Antena 3, parceiro media desde o primeiro momento; depois o nosso Zé Costa e a sua Banzé que são parceiros “de luta” desde o dia 0; mas também as rádios locais e regionais, a imprensa escrita nacional e os muitos espaços da web que têm disseminado este projeto cultural por todo o lado; e claro, e fundamental, o investimento autárquico e a certeza deste projeto como elemento crucial de potenciação de serviço público e à comunidade. A proximidade à Galiza é igualmente importante e natural, pelo que é frequente vermos os amigos galegos na Casa das Artes, embora nestes anos tivéssemos casos de deslocações especificas para ver concertos do Sons de gente da Alemanha e Bélgica!

Pensamos que o conceito e a ousadia do Sons acabam por ser um forte atrativo para quem quer assistir a performances únicas, num ambiente único, impossível de replicar, pelo menos, nos palcos da região; o conceito do Sons está mais próximo dos clubes londrinos do que do convencional palco “afastado” dos tradicionais, e frios, auditórios e teatros municipais.

 

Sente a área dos festivais de música (e eventos em geral) mais profissional na atualidade?

Sim, como tudo o que envolve a música e o espetáculo em Portugal; o salto é de gigante. O nível de produção e de profissionalismo da grande maioria dos envolvidos no setor é elevado, fazendo de Portugal uma referência internacional; claro que também temos um trunfo adicional: improviso e capacidade de contornar dificuldades; o desafio, contudo, é sempre o mesmo, isto é nunca deixar que os segundos se sobreponham ao primeiro.  

 

Como vê o papel da APORFEST na regulamentação e fortificação da área dos festivais de música em todas as suas vertentes - promotor, media, sponsor e público final?

O vosso papel é fundamental; são a ligação natural entre todos os agentes que, durante muito tempo, viviam fechados num espaço muito próprio e achando que todos sobreviviam somente em casa própria. Claro está que o público é igualmente mais esclarecido, atento e critico, pelo que a responsabilidade e união de todos é um trunfo global que não pode ser desprezado quando se pretende ter projetos e eventos de sucesso; neste âmbito a APORFEST volta a ter papel importantes ao perceber o que está a jusante, permitindo assim apoiar a montante.

 

 

 

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