Não se pode ter medo do campo no Rodellus. Entrevista: Jorge Dias (diretor)

Ainda ontem era 2015 e hoje já estamos a caminho da 3ª edição do Rodellus (27-29 julho, Ruílhe). Um festival que vai evoluindo a sua forma de trabalhar, tentando profissionalizar-se mas mantendo  o  traço que o distingue, o que já lhe valeu alguns reconhecimentos. Falámos com o seu principal mentor, Jorge Alexandre Dias.

 

 

APORFEST: O Rodellus vai já para a sua 3ª edição. O que podemos esperar de diferente e evolutivo?
Jorge Dias: Temos várias surpresas para 2017. A começar pela programação que se apresenta reforçada em vários âmbitos contando este ano com uma residência artística a cargo do “Projéctil”, associação bracarense que além de upcycicling de materiais e arte urbana, impulsiona as artes performativas, sendo uma verdadeira referência na região. Além disso contaremos com uma exposição das ilustrações de Rafael Santos, membro dos Moon Preachers e três “Sessões Rurais”, uma por cada dia de festival, que tem como principal finalidade levar um pouco da realidade da cultura dos festivais aos jovens que integram o Centro Social Padre David Oliveira Martins e as Oficinas de S. José. No fundo, são três showcases com projectos como The Sunflowers, Mr. Gallini e os já citados, Moon Preachers e contam com o apoio da SBSR.fm, a rádio oficial desta edição 2017. A cultura deve funcionar como um agente integrador, que celebra a diversidade e a inclusividade. Considero que com esta iniciativa conseguimos realmente marcar o presente, ajudando a definir um futuro desprovido de determinados preconceitos.

Além disso temos uma “programação secundária” onde contamos com uma forte componente ambiental, com a introdução de medidas que vão da consciencialização à redução máxima da pegada carbónica. Em jeito de exemplo, 30% da alimentação dos artistas no backstage, vem de produtos plantados e cultivados por nós. A totalidade dos resíduos do food court será utilizada para adubar os terrenos para que, no próximo ano, consigamos aumentar ainda mais estas métricas. Este tipo de cuidado e atenção ao detalhe vem de uma equipa com um coração enorme que, de ano para ano, evolui e se diferencia de todos os outros festivais.


O público hoje "já não tem medo do campo" seguindo o vosso lema, ou seja, hoje o público procura a vossa experiência?
Somos um festival de experiências, sem dúvida, e sim o público tem aderido cada vez mais ao conceito e demonstrado cada vez mais entusiasmo de edição em edição. A verdade é que existem cerca de 250 festivais por ano em Portugal, e segundo os últimos relatórios, o número tende a aumentar, e isso acaba por levantar algumas questões de posicionamento. No entanto, temos uma visão muito própria do Rodellus. Não é só mais um produto comercial como tantos outros. A missão é muita clara: promover a descentralização cultural utilizando esta para catalisar o plano social, económico e ambiental da região. Daí o “não ter medo do campo”. Mais que uma iniciativa é uma causa que ao longo de 3 dias celebra a música, as subculturas urbanas e as tradições rurais numa das melhores festas do verão.

 

 Quais as dificuldades inerentes à vossa construção anual do Rodellus?
Nós temos dificuldades únicas comparativamente a outros festivais. De ano para ano, construímos um recinto de raiz, onde se inclui vedações, isolamentos visuais, decoração e conforto e isso obriga a um planeamento e trabalho contínuos. É importante adequar o recinto às necessidades do festival e componentes como planos de segurança, pontos logísticos, acessos ou serviços são revistos de edição em edição. O próprio layout tem mudado de ano para ano, de maneira a termos um festival cada vez melhor! É algo que nos sai do corpo porque não temos estrutura para subcontratar serviços, e, de uma maneira quase que masoquista até preferimos. Os laços que são estabelecidos na partilha de ideias e no “trabalho de campo” reforçam a coesão desta equipa. Quero acreditar que uma percentagem das palmas que são endereçadas aos artistas, por mais pequena que seja, seja direcionada às pessoas que constroem este festival.
 

Como são concretizados os apoios institucionais, municipais e de outros patrocinadores?
Somos um festival que se realiza num meio rural. Por esta razão, é muito difícil considerar a sponsorização por parte de grandes agentes económicos, no entanto, temos trabalhado no sentido de estreitar pontes e definir pontos únicos de partilha com determinadas entidades. Por outro lado, temos um conceito muito vincado e sabemos perfeitamente que determinadas ativações de marca podem desvirtuar o mesmo. Penso que aí reside o verdadeiro desafio.

 

Para nós, enquanto promotores, de saber aguentar certas pressões económicas que de facto existem, mas também para as marcas, que têm aqui um desafio de fazer algo diferenciado do que apresentam um pouco por toda a rota festivaleira. Trabalhamos muito com parcerias estratégicas, especialmente na parte da mobilidade, de maneira a tornar o Rodellus o mais acessível possível mas também no contexto social. É importante envolver toda a comunidade em torno do festival. É neste trabalho diário de inputs que conseguimos também orientar o festival para ir de encontro às necessidades da própria comunidade. Em jeito de exemplo, em 2015 não existiam casas para alugar na região, particularmente em Ruílhe. Hoje em dia existe alguma procura, e vemos um esforço por parte da comunidade em capitalizar essa mesma necessidade, dando resposta a um problema que acabava sempre por ficar do lado da organização. Este tipo de entropias são interessantes de se analisar e refletem o impacto positivo do festival na região. São estes e outros sinais que reforçam a confiança da Câmara Municipal de Braga no projeto, que de ano para ano, tem vindo a apoiar e a validar o Rodellus. Para qualquer tipo de apoio, seja ele monetário, logístico ou institucional deve existir um princípio de reciprocidade, e penso que temos feito um trabalho louvável, semeando a cultura numa região que se encontrava estagnada em vários planos. Esse é o nosso melhor cartão-de-visita, e esta semente que semeámos em 2015, está a germinar e a crescer ao ritmo certo.
 

Onde querem chegar daqui a 2-3 anos?
É difícil prever o futuro, e nesta área rapidamente as coisas podem mudar, mas não é por isso que deixamos de ser ambiciosos. Daqui a 2-3 anos seria interessante ter um pouco mais de notoriedade. Sabemos que com isto conseguimos um reforço nos apoios, atraímos media partners influentes e por consequente, acabamos por melhorar a experiência e o próprio cartaz. Não temos nenhuma projeção megalómana de crescer desmesuradamente. Queremos um crescimento sustentado na componente qualitativa e não tanto na quantitativa. Pensamos que este é sem dúvida a caminho certo a ser trilhado.
 

De que forma a APORFEST funciona como um apoio para a vossa implementação?
A APORFEST tem sido um parceiro importantíssimo na realização deste bonito festival que é o Rodellus. Este é feito com muita vontade e crer, mas por vezes, só isso não chega.
De maneira a aumentarmos a qualidade do festival é preciso reconhecer o meio, perceber as suas particularidades e respetivos agentes. A Aporfest é um portal para toda esta indústria, possibilitando o trabalho continuo com os melhores parceiros e aproximando estes dos promotores, além de promover, o debate de questões que são fraturantes para a indústria. Eventos como o Talkfest ou o Iberian Festival Awards promovem o networking, destacando também o que de melhor se faz a nível nacional e ibérico, tónicos importantes para os promotores, particularmente para aqueles que como nós, querem fazer mais e melhor. Aproveito também para destacar o papel formativo da associação que tem dado respostas e esclarecimentos em vários planos, através das suas formações, como também criando uma base saudável para o diálogo entre promotores, percebendo as suas preocupações e agindo sempre no sentido de que estes tenham as melhores respostas face aos problemas que se apresentam.

 

** Créditos fotografias: Shootsounds / Jona Rita

 

 

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