Ser internacional num local com 100 habitantes permanentes, é o FIMM. Entrevista: Jorge Rosado (Ass. Marvão Music)

26/07/2017

 

Está a decorrer a 4ª edição do FIMM - Festival Internacional de Música de Marvão que guarda a sua ocorrência anual para a última dezena de dias em julho. Este festival é já uma das referências em termos de programação musical clássica e várias são as novidades desta edição que terá o seu término a dia 30 num espetáculo especial da Orquestra de Marvão e que será presenciado pelo atual Presidente da República. Falámos com Jorge Rosado (Vice-presidente da Associação Marvão Music).

 

APORFEST: Está já a ocorrer a 4ª edição do Festival internacional de Música de Marvão. O que podemos esperar?

Jorge Rosado: O 4º FIMM propõe a programação mais ambiciosa de sempre e traz a Portugal artistas do mais elevado nível mundial. O público tem respondido com grande entusiasmo, reacção positiva que se reflecte no aumento significativo do número de visitantes e na sua distribuição pelos mais de 35 concertos e outras actividades paralelas: concertos e actividades dirigidos a crianças, concertos de Prelúdio e de Poslúdio, um piquenique musical na excepcional Quinta dos Olhos d'Água - situada no coração do Parque Natural da Serra de São Mamede. Os visitantes do FIMM encontram uma ligação extraordinária entre música, património histórico-cultural e natureza, que os cativa desde o primeiro momento e os faz querer regressar, sempre nos últimos 10 dias de Julho. Uma outra realização - que já se tornou uma das principais actividades do Festival - é a Marvão Festival Orchestra (MFO), orquestra composta por elementos da Orquestra de Câmara de Colónia e por músicos amadores de várias idades, provenientes dos vários cantos do mundo. Durante o Festival, este grupo ensaia arduamente, todos os dias, apresentando-se ao público no final com um concerto de estreia.

 

Como tem evoluído o festival?

Quando olhamos para trás, há 4 anos, aquando da primeira edição do FIMM - com uma programação de apenas três dias - e observamos o percurso efectuado, é impossível não sentir um orgulho e uma responsabilidade imensas. Orgulho por constatar o impacto positivo desta empreitada inusitada nas gentes de Marvão - terra onde vivem menos de 100 habitantes em permanência -, e a responsabilidade de dar continuidade a este evento, que foi considerado o Melhor Evento pelos Prémios Turismo do Alentejo, e que para muitos significa ou é um sinónimo de real desenvolvimento sócio-económico. Já não se consegue imaginar Marvão sem Música!

 

Como é a ligação com o Município de Marvão?

A Câmara Municipal de Marvão, co-organizadora do evento, é a casa do FIMM. O apoio à organização do Festival tem sido crescente e cada vez mais significativo, não sendo possível dissociar Marvão e o seu município da própria existência do Festival. Não contando com o apoio financeiro direto, seria impossível contabilizar o apoio indirecto em termos de logística e de recursos humanos. Sem o Município de Marvão não seria possível transportar 60 músicos Chineses desde as portas da vila até à entrada do Castelo em tempo recorde. Não seria possível levar artistas e público aos vários locais que servem de sala de concertos, incluindo aos municípios vizinhos.

 

 O que representam as doações, amigos e círculos de pessoas para o festival? O que fizeram eles acontecer para esta edição?

Os Amigos e o Círculo de Patronos do FIMM representam uma rede mundial de particulares e empresas, todos ligados por um denominador comum: a sua paixão pela música clássica. Por motivos óbvios, jamais se poderia organizar um Festival com uma programação tão extensa e com mais de 300 artistas, provenientes de cerca de 25 países, numa localidade do Interior. Mas os Amigos e Patronos do FIMM não contribuem somente com apoio financeiro; o FIMM é organizado pela Associação Marvão Music, uma associação sem fins lucrativos criada para o efeito e constituída exclusivamente por voluntários, que doam o seu tempo e trabalho (cerca de 16 horas por dia nos dias em que o Festival decorre), simplesmente por paixão.

 

Ao sermos júri do Effe Label verificámos uma grande consistência e trabalho na candidatura e enfoque internacional. Porque não existe tanto essa preocupação, ou abertura de estar próximo das entidades representativas, no lado nacional?

O FIMM existe em Portugal como uma espécie de catalisador: atrai o melhor da música clássica de todo o mundo para Marvão para depois, a partir daqui, do alto desta crista quartzítica, voltar a redistribuí-la para todo o planeta, a partir de Marvão. É uma realização Portuguesa e o camarim do Maestro Christoph Poppen é a sua própria casa em Marvão. Naturalmente, não sendo ainda uma estrutura profissionalizada, a organização do FIMM está ainda maioritariamente dependente da boa vontade das instituições estrangeiras, aquelas que mais apoiam. A fundação Anja Fichte, dedicada a apoiar jovens músicos através da atribuição de bolsas de estudo e sediada na Alemanha, é indubitavelmente o nosso mecenas principal, desde o primeiro momento. Quando pensamos no futuro deste evento especial, a nossa única preocupação é continuar a atrair e a integrar as pessoas e as instituições certas, independentemente da sua nacionalidade. Todos sabemos que um Festival de Música Clássica não se paga a si próprio (exceptuando-se raríssimos exemplos em todo o mundo). No entanto, ficamos muito felizes por constatar que, cada vez mais, a receita da bilheteira é mais significativa, o que nos deixa muito felizes e motivados para continuar a fazer o melhor possível em cada momento. De notar ainda um facto muito importante: muitos dos artistas que participam do programa do FIMM são Portugueses. Não existe, de todo, qualquer candidatura ou enfoque internacional em particular, mas a nossa equipa-base tem também alterado de ano para ano e de futuro com a manutenção dos interlocutores será mais fácil.

 

De que forma a APORFEST pode ser um apoio para o desenvolvimento a curto prazo do festival?

É uma excelente pergunta! Cada edição do FIMM tem sido feita por pessoas diferentes, o que significa que a cada ano é quase um "começar de novo" e é difícil fazer o follow-up de assuntos importantes como a agregação dos festivais e seus responsáveis.

 

 

 

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