Mais mobilidade, informação e menos tribalismo dão mais público a festivais. Entrevista: Ivo Martins (diretor artístico Guimarães Jazz)

14/11/2017

 

São 26 anos do festival Guimarães Jazz e 22 anos contam com o envolvimento de Ivo Martins e muita escrita perdida em prol da consolidação do mesmo e da união e enriquecimento do público que frequenta e visita a cidade. Uma dos mais enriquecedores testemunhos tidos para a Aporfest.

 

 

APORFEST:  Como foi preparada a edição de 2017 do Guimarães Jazz?
Ivo Martins: O alinhamento do festival foi preparado com a ideia dos 100 anos de discos de jazz e o concerto de 9 de novembro que a All Star Orchestra proporcionou fez uma revisitação à sua história e a muitos dos temas escritos e produzidos ao longo destes anos para este estilo musical. Esta foi a ideia base pelo qual foi construído todo o programa de 2017.

A evolução do festival em 26 edições como foi processada? O que foi conquistado?

Adapta-mo-nos, reinventamos e vamos ao encontro do contexto do jazz em Portugal. Hoje está tudo diferente e para melhor, existem mais músicos e mais escolas a formar jovens músicos de jazz (pessoas cultivadas, que conhecem e sabem interpretar este estilo musical com qualidade). Por outro lado as audiências estão hoje, também, mais exigentes e obrigam os músicos a tocar melhor. A plataforma de interação entre os agentes musicais e o seu público, muitas vezes sem barreiras, proporciona que o festival tenha tirado partido disso - um exemplo são aos alunos do curso superior de jazz da ESMAE que dão música por vários locais na cidade, de forma gratuita, indo ao encontro de outros públicos, são assim um exemplo de novas ações que dão um acréscimo importante ao festival. Outros exemplos como as Jazz Sessions, e outros espaços com música ao longo de determinados horários (e.g. shoppings, confeitarias) faz com que o jazz seja ouvido de forma informal, sem pagar bilhete, enquanto  se bebe um copo, ganhando-se assim, indiretamente, público. O Guimarães Jazz não é apenas o que se passa dentro dos auditórios mas tudo o que o envolve e lhe confere assim outra solidez e capacidade de reinvenção permanente.

 

Como consegue ir reformulando a atração de novos públicos ao festival?
Há um estudo sociológico que diz que, desde os meados dos anos 90, o público para eventos aumentou três vezes, à escala global, mas ainda não se sabe ao certo o que está por detrás desta conclusão. Isto desencadeou uma estrutura organizacional profissional montada e um ambiente (e.g projeções e dinâmica visual impactante) que faz com que as pessoas se sintam que estão no seu interior, fazendo parte desse enredo. Com o crescimento do mp3 e do streaming as pessoas estão sedentas de sentir e interagir a música, e o mais próximo que tinha acontecido era com o objeto vinyl e que hoje desapareceu mas as pessoas procuram o contacto o sentir a música no real, no presente e  talvez seja essa uma das hipóteses possíveis para este aumento de púbico e o festival tira obviamente partido deste fenómeno. As pessoas vão hoje a mais concertos que no passado, as pessoas hoje têm maior mobilidade e informação disponível, são também "nómadas" movimentando-se entre músicas (e estilos) e no passado estavam mais formatadas. Talvez seja este um conjunto de circunstâncias exteriores ao festival que contribuíram em muito para o seu desenvolvimento.


Como sente hoje o panorama dos festivais de música, nomeadamente os portugueses?
Em termos de cultura nunca se pode discutir que existe algo a mais. Em Portugal existe é culturalmente muitas coisas a menos. Agora o que se pode e deve discutir é a qualidade. O Guimarães Jazz nasceu há 26 anos teve um tempo próprio desafiado pelo seu percurso, a sua história e não se acomodou antes desenvolvendo ideias que ajudam a não ficar esgotado o nosso conceito. Pensamos e debatemos muito, não se faz um festival apenas com um alinhamento de concertos - é preciso de ter ideias, objetivos, planeamento com um ponto a alcançar e discutir novamente analisando onde se falha. Procura-se é muitas vezes resultados rápidos, acabando-se com conceitos e este festival aproveitou uma conjectura positiva que lhe permitiu crescer e hoje ter esses frutos.


Como vê a evolução futura desta área, a curto-médio prazo? Uma visão coletiva?

É impossível controlar formas de sinergia de uma forma transversal, entre todos, mas vemos festivais a começar, a acabar e nós vamo-nos mantendo e temos sempre a mesma data para a ocorrência do festival. Somos uma marca, quase sempre cheio (70% do público fora de Guimarães, mesmo em concertos durante a semana) e por isso temos também de concorrer com outras marcas, é como tudo, vamos tendo novas situações e analisamos o nosso trabalho. Hoje um novo festival precisa de ter argumentos mais fortes para se diferenciar e se manter.

 

De que forma pode a Aporfest ser um suporte para o festival? 

Eu não sou profissional desta área, eu trabalho em saúde. Esta é uma parte paralela, a que junto exposições de arte e escrita em vários pontos e para tal preciso de ler e ouvir música todos os dias, não tendo férias desde há muitos anos, mas que não troco por nada. Ajudarei e darei todo o contributo e opiniões que puder e estou disponível para as ações que possam realizar.

 

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