Treme, treme e é cada vez mais um festival de referência em Portugal. Entrevista: Márcio Laranjeira (equipa Tremor)

É nos Açores que ocorre o Tremor e é lá que a cada ano são surpreendidos os festivaleiros que o visitam. Já houve de tudo um pouco (diversidade de expressões artísticas além da música, concertos em locais inusitados, integrações artísticas) mas ainda há muito espaço para crescer. Falámos com Márcio Laranjeira, um dos elementos da Lovers & Lollypops que ajuda a dar qualidade a este festival.

 

 

APORFEST: . O Tremor vai para a sua 5ª edição, conseguindo já ter uma identificação que o diferencia no panorama nacional em termos de festival muito potenciada pelas sinergias criadas. Qual a razão deste sucesso?

Márcio Laranjeira: Em primeiro lugar temos de falar do local onde o Tremor acontece, e que influencia todo o festival, desde o alinhamento, à imagem, e mesmo o mood. O arquipélago dos Açores é um conjunto de ilhas bastante especial, e São Miguel, onde o Tremor acontece, é um pequeno pedaço de terra que prima pela variedade, que te consegue deixar de boca aberta pela beleza e pela força das paisagens, da natureza e das pessoas. Até o clima tem um misticismo estranho, torna a coisa mais simples em algo especial. É a réplica deste sentimento que a ilha provoca nas pessoas, que para mim é um pouco difícil de por em palavras, que o Tremor quer provocar. Dai a importância da oferta de programação ser variada e orgânica, provocando diferentes estímulos e sensações ao longo dos dias. Nunca poderia ser algo linear nesta localização. E para fazer algo variado e interessante é necessário estar ligado a gente que tenha coisas boas para oferecer, e é isso que temos feito ao longo destes 5 anos. Fazer do Tremor um ponto de encontro e de ligação de artistas, instituições e pessoas que admiramos e que provocamos para fazer isto connosco.

 

A escolha artística é idealizada e processada de que forma atualmente? De que difere quando organizaram a 1ª edição?

Na primeira edição o cartaz foi 100% nacional, e não havia na altura da nossa parte uma ideia muito clara do que seria possível fazer a partir dai. Estamos super orgulhosos desse primeiro alinhamento que conseguimos juntar em menos de 4 meses, e nessa altura as dúvidas eram muitas: não tínhamos nenhum dado sobre como o público iria reagir a uma proposta destas, e mesmo se haveria público para o que estávamos a propor. A visão era local, de como chegar às pessoas de São Miguel. Felizmente essa primeira edição esgotou para surpresa de todos. Há um público que está sedento de ofertas como a que proporcionamos. A partir dai ficamos com certezas de que era possível pensar o festival além do arquipélago. Como para a segunda edição já tivemos um ano para trabalhar, foi possível ter bandas nacionais e internacionais, não com alguma formula ou percentagem, mas com a ideia de ter um cartaz variado, que permitisse ao público ter uma série de experiências diferentes ao longo do Tremor. Essa segunda edição também correu super bem e permitiu arriscar mais um pouco para a seguinte, sentimos que havia reação do público aos estímulos que devamos, sendo eles um artista que tenha uma carreira com exposição, ou uma proposta mais arriscada a nível sonoro ou de perfomance, bem como de reconhecimento do público. Quando programamos o Tremor não pretendemos ter uma estrada recta com só uma saída, queremos que o publico possa ir a muitos lados e absorver informação muito distinta.

 

Qual a tipologia do vosso público - residentes, turistas nos dias, turistas que viajaram especificamente para o vosso festival?

Temos a grande maioria de púbico local, que são os nossos pilares. O festival é feito e nasceu para quem vive nos Açores, e é óptimo sentir que ao final destes 5 anos, e mesmo com o crescimento do festival, este não se tornou um alien. Continua a relacionar-se e identificar-se com as pessoas que vivem o ano todo no arquipélago. Desde há dois anos começamos também a ter uma fatia muita grande de público de fora, posso arriscar que em 2018 andará entre os 30% a 40% do publico do festival. Nesta fatia temos gente que estava a pensar em ir aos Açores e o Tremor foi o motivo para tomar essa decisão de comprar os bilhetes de avião e ir. Temos muito público que foi no ano de 2017, adorou a experiência e volta em 2018. Temos também alguns turistas que se apercebem que enquanto estão na ilha vai haver o festival, contudo este último segmento é mais pequeno, e só temos uma noção maior de quantos são nas semana do Tremor.

 

Que pontos de programação destacam para esta edição?

Em 2018 acredito que conseguimos montar uma boa festa de 5º aniversário. Temos nomes que nos dizem muito, como os Dead Combo a pré apresentar o novo disco, os Boogarins, os Liima, Micky Blanco, os Três Tristes Tigres , que será um prazer ter em São Miguel nesta nova vida da banda, ou a estreia dos Parkinsons em território insular, uma das bandas punk rock mais importantes da ultima década em Portugal. Nos nomes menos conhecidos temos algumas apostas que sabemos que vão dizer muito às pessoas, como os Snapped Ankles, Sheer Mag, Ermo, Mauskoviç Dance Band ou Mal Devisa vão fazer parte da história de 2018. Além dos concertos há uma outra parte do programa que nos orgulha bastante que sao as residências artísticas, desde o projecto que a ondamarela está a fazer com a Associação de Surdos de São Miguel, o trabalho que o Gringo sou EU vai realizar com a Escola de Música de Rabo de Peixe, ou o projecto quase etnográfico que o coletivo PELE vai fazer durante o Tremor, que vai resultar numa apresentação no MINI Tremor e numa publicação. Temos também as conversas do Creative Independent, a inauguração da exposição da Pauliana Valente Pimentel, os Tremores na Estufa (concertos em localizações secretas) que já se tornaram uma imagem de marca do Tremor. O Tremor Todo-o-Terreno, que neste ano irá explorar uma nova localização de São Miguel, e por último o Mini Tremor, que já mencionei em cima, e tem uma programação dedicada aos mais novos e de entrada gratuita. O programa é extenso e variado, os caminhos são muitos, pelo que sugiro uma visita ao site onde há muita informação para beber.

 

Qual a evolução que o festival pode obter nos próximos 2-3 anos?

Neste momento o festival está muito perto de ter a segunda edição esgotada na sua história, que para nós é o melhor reconhecimento que o público nos pode dar. A lotação do festival é reduzida, e assim continuará a ser no futuro. As 1500 pessoas por dia é o numero certo para o Tremor, com mais gente algumas das coisas que o fazem especial perder-se-iam, e para nós é muito importante que esta orgânica e experiência se mantenha. Contudo queremos crescer, não em números, mas em ações. Temos uma visão de um Tremor que dure um ano inteiro, em que as suas ações não se foquem numa só semana, mas que seja possível ter programação ao longo do ano, residências, ou exibições. Estender o programa no tempo, e quem sabe a outras ilhas, é o nosso maior objectivo.

 

De que forma a Aporfest é um mecanismo de apoio do mesmo?

A APORFEST fala para o nosso público de uma forma clara e informada e isso é muito importante. Além disso tornou-se um ponto de referencia para encontro de profissionais e troca de experiências e ideias, e num meio tão orgânico e em constante mudança como o dos festivais, esta troca de informações e aprendizagem constante com os pares é algo de salutar e que merece ser aproveitado ao máximo.

 

 

 

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