Uma Porta que mexe com a área cultural de Leiria. Entrevista: Gui Garrido (Diretor Festival A Porta)

Existem cada vez mais festivais que se propõem a dar vidas a municípios, fora dos grandes centros urbanos - estes mexem com os seus agentes culturais, com os seus residentes e comprometem-se a fazer dos mesmos aglutinadores de programação com características únicas que permitem trazer outros públicos e fidelizar os que lá moram. São estas as premissas do Festival A Porta que vai para a sua 4ª edição e se tornou num evento de âmbito nacional que extravasou fronteiras, sem pedir licença. Falámos com um dos seus responsáveis, Gui Garrido.

 

 

APORFEST: O que é o Festival A Porta?

Gui Garrido: A Porta é um palco artístico de sinergia, colaboração e comunidade, beneficiando de um momento áureo na produção criativa e artística feita na cidade. O festival assume o formato de uma semana e alastra a sua programação a várias zonas da cidade, com uma programação repleta de concertos, exposições, jantares temáticos, arte nas ruas, residências artísticas, feiras, e workshops para crianças. A Porta abre 1001 Portas de casas, igrejas, lojas, jardins, teatros e ruas inteiras revelando o melhor de Leiria. Propõe vários roteiros culturais com artistas locais, nacionais e internacionais, fortalecendo a inclusão de diversas comunidades e experiências, numa verdadeira plataforma intergeracional e interdisciplinar. Para começar, temos a vontade de querer fazer acontecer, entre o sonho e a realidade possível. Depois, A Porta é pensada para todos, em especial para os Leirienses apontando para o centro da cidade, através de uma forma de abrir esta comunidade e riqueza cultural ao país todo. Em 2018, A Porta abre-se de 16 a 24 de Junho, e é organizada pelo coletivo Meia Dúzia e Meia de Gatos Pingados.

 

Qual a evolução sentida no mesmo desde a 1ª edição, de 2014?

A Porta teve 3 edições, com um ano de interregno. O festival passou de um formato de 4 dias para o atual de 7 dias, tendo ao longo dos anos feito um esforço para cada vez mais ser uma ponte de encontro inclusiva do local com o global. Há muitos mais agentes locais a participarem activamente, o programa artístico é mais denso, e com o tempo vamos explorando também novas áreas da cidade, e introduzindo novas experiências e parcerias. O Festival valoriza lugares esquecidos, atribui-lhes valor, reclama-lhes vida, inclui e convoca a participação, e se foi mais difícil no início, hoje em dia tornou-se uma necessidade e imperativo que o Festival A Porta aconteça no panorama cultural de Leiria.

 

 

Como é feita a envolvência nos agentes locais de Leiria?

O Festival A Porta é erguido quase a 100% com os agentes locais. Eles são o comércio tradicional, hostels, bares, cafés, galerias, lojas, oficinas, espaços vazios, abandonados, devolutos ou espaços a emergir, como o recentemente aberto Stereogun. Leiria vive um momento incrível de ebulição criativa, ora não fosse esta a cidade-mãe da Omnichord Records (a editora dos First Breath After Coma e Nice Weather for Ducks, duas bandas charneira da programação deste ano). Ou de outros projetos como o Capitão, projeto incrível e livre de programação musical e artística, os Casota Collective que andam a criar alguns dos videoclips mais remarcáveis do país e que criaram a imagem do festival, ou ainda projetos muito inspiradores de educação e inclusão pela arte como a Inpulsar ou a SAMP. Depois, a Câmara Municipal de Leiria é âncora e um apoio imprescindível para tornar o festival possível. Mas sobretudo, que fique a ideia de que os agentes locais são envolvidos a 360º, criando uma grande rede de colaboração que afecta de facto a vida e dinâmica cultural e social da cidade.

 

Que pontos de programação destacam para este ano?

A 4º edição do festival tem um cartaz musical para tudo e todos, que vai do Odeon Hotel de Dead Combo, o rei Bonga, o príncipe Conan Osiris, a melhor banda portuguesa ao vivo que são The Parkinsons, as pérolas da casa Nice Weather for Ducks ou First Breath After Coma, num concerto especial com um quinteto de sopros, Coro Juvenil de Alitém e Escola de Dança Clara Leão, no espaço mítico da Villa Portela. Depois, há 30 atividades infantojuvenis na programação da Portinha: workshops e bailes folk, oficinas de cinema de animação, construção de máscaras e de livros, yoga, danças urbanas, viagens sensoriais, pães coloridos, reciclagem, tecelagem vegetal, etc,. A diversidade programática é grande e aposta no encontro, nas relações criativas e promove novas ideias e experiências. 4 Jantares Temáticos em casas de Leirienses com direito a sobremesa musical e (já!) lotação esgotada, ou até uma Casa Plástica com a exposição de artes visuais "Esta Casa já deu Luz", com um serviço educativo com visitas guiadas e workshops. Além de feiras de autor e de tudo e mais alguma coisa, e 1001 Portas para ver e viver Leiria através da arte urbana, teatro, dança e experiências sensoriais.

 

Como é realizada a angariação e fidelização do público para o festival?

Angariar e fidelizar público para o festival é um trabalho que nunca mais acaba. Trabalhamos com crianças de berço, séniores, escolas de todos os níveis, a comunidade artística e a sociedade em geral. Antes de tudo, comunicar e fazer chegar a informação aos diferentes alvos é essencial, depois há um grande cuidado em incluir e em convidar a fazer parte. Toda a gente pode mesmo participar pelo menos numa actividade do Festival, porque existem propostas dirigidas a todos e que vão ao encontro das diferenças. Grande parte da programação é gratuita, o que quer dizer que ano após ano conseguimos fidelizar mais e chegar a novas pessoas. Abrir e experimentar outros lugares na cidade também tem o mesmo efeito, e comunicar esta Porta, cada vez mais Portão, traz cada vez mais pessoas de todo o país para viver esta experiência de abertura.

 

Como pode evoluir o festival nos próximos anos?

O Festival A Porta pode evoluir para a profissionalização, a verdadeira garantia de uma estrutura devidamente financiada para funcionar como um agente cultural activo, e que se abre o ano todo através de múltiplos projetos. Acho que caminha também para ser um evento definitivamente diferenciador da oferta cultural da cidade, a par de acontecimentos como o Entremuralhas, o Festival Monitor, Hádoc, Leiria Film Fest, entre muitos mais, e que fortalece e cria novas desafios ao seu tecido cultural, ao mesmo tempo que o faz ver, participar, cruzar e experimentar novos mundos e outras aproximações à arte e cultura. A Porta é uma cidade toda, e um dia todas as Portas de Leiria se abrirão com ela. Nesse dia, estaremos mais perto de fazer um festival para todos e que mostra a cidade vibrante, urgente e em ebulição que Leiria já é, e que pode ser muito, muito mais.

 

De que forma a Aporfest e os seus eventos Talkfest e Iberian Festival Awards poderão ser um impulso de notoriedade e profissionalização do festival?

A Aporfest e os seus eventos têm um papel fulcral em reunir o sector, e em dar a conhecer o que se faz um pouco por todo o país, nas mais diversas escalas. O que fazemos, não fazemos sozinhos, e é muito importante conversar, estar a par e poder seguir o desenvolvimento de outros projetos, para ler a vitalidade com que a indústria dos festivais acontece em Portugal. A Aporfest ajuda-nos a fazer parte de um todo que comunica o que existe e que vai confirmando a pulsão das diferentes ilhas criativas que vão acontecendo no país. Portugal é Lisboa, Porto, o Algarve, os Açores, a Região Centro, o Norte, Trás-os-Montes, a Madeira e muito mais. Leiria está no centro do país. Ligar-se à Aporfest é ligar-nos a uma plataforma de confluência e aceitar evoluir, levar os nossos projetos aos olhos e ideais de um público mais amplo, o que numa quarta edição de Festival A Porta faz todo o sentido.

 

 

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