O público é ator no Festival Tradidanças. Entrevista: Filipa Pereira (produtora)

11/07/2018

Acontece em S. Pedro do Sul um festival que tem apenas a sua 2ª edição mas que vai integrar na sua programação diferentes atividades que se segmentaram pelos períodos de um dia - manhã, tarde e noite - um festival familiar, com preocupação sustentável e das crenças culturais e que pretende diferenciar-se no mercado português. Falámos com Filipa Pereira, a sua atual produtora.

 

 

APORFEST: O que é o Tradidanças?

Filipa Pereira: O Tradidanças é um festival de Tradições, Dança, Música e Natureza que acontece nos dias 2, 3, 4 e 5 de agosto em Carvalhais (São Pedro do Sul) cuja programação incide, maioritariamente, na música e dança (folk) ligadas às tradições, e ainda na promoção do património natural e cultural da serra da Arada. Este é um evento de cariz participativo que se desenvolve a partir de oficinas (workshops) de dança do mundo nas tardes do festival (indianas, africanas, brasileiras, irlandesas, dos Balcãs, galegas,…) que, umas horas depois, confluem em bailes marcados pela sinergia entre músicos, monitores e o público que dança. Existem ainda oficinas em torno de instrumentos musicais, relaxamentos/oficinas de desenvolvimento pessoal, oficinas de artes plásticas, artes de rua e saberes sobre o património local (como a confeção da broa de milho da região) que, igualmente, permitem aos participantes serem atores no próprio evento. Há igualmente espaços em que o público é (mais) espectador, como nos concertos (palco principal e igreja), nas conversas de balneário, nas sessões de contos e nas performances de rua. Este é, por isso, um festival que procura não só dar a conhecer aos participantes saberes tradicionais da região, mas também da cultura de outros lugares através da diversidade nas danças, nos produtos da Feira de Artesãos e Expositores e nos sabores gastronómicos (locais, vegetarianos e internacionais) que oferece. O Tradidanças é organizado pela Associação Turística e Agrícola da Serra da Arada (ATASA), em parceria com o Município de São Pedro do Sul e com a União de Freguesias de Carvalhais e Candal.

 

Qual a evolução que o público vai experienciar da edição de 2017 para esta que ocorrerá no próximo verão?

A edição de 2018 vai relevar-se assumidamente folk e ligada à música do mundo. Em 2017, a aposta  incidiu em sonoridades mais alternativas, do rock ao trance e techno. Este ano, em termos musicais, a programação é totalmente voltada para uma dinâmica de oficinas, bailes e concertos com artistas folk, das danças tradicionais e do mundo (que já aconteceram na primeira edição, mas em menor quantidade), conforme acontecia quando o Festival Andanças decorria neste local.

Outra aposta deste ano é a entrada das tradições no recinto do festival. Assim, a par das Viagens de Tradição e das Viagens de Natureza que se realizam nas manhãs do evento pelas aldeias do território da serra da Arada (estando o recinto do festival fechado para testes de som e reposição de produtos) e que permitem um contacto com os lugares, suas práticas culturais e ainda com a paisagem natural, dentro do recinto as tradições também terão o seu protagonismo no laboratório da tradição. Neste lugar, em cada dia do festival, estará um habitante da comunidade local, um produtor detentor de um saber, que o dará a conhecer através de conversas, demonstrações e, caso se aplique, degustação de produtos gastronómicos. É um espaço onde os participantes podem entrar, colocar questões e aprender 4 tradições da região.

Na designação do festival, este ano acrescentou-se o conceito Natureza de forma a integrar os valores da paisagem natural do território (conhecido pela beleza das suas serras e pelos seus ribeiros com “poços” ou piscinas naturais) e porque se acredita que, à concretização do festival, deve estar associado um esforço de redução do seu impacto ambiental na comunidade e uma preocupação na difusão de valores ambientais.

Outra novidade é o espaço lúdico-intergeracional (ELI) com atividades para crianças e adultos em torno dos contos (com contadores de histórias), oficinas de expressão plástica, oficinas e performances de artes de rua, e oficinas de ritmos e sonoridades, nas tardes do evento. Esta era uma oferta que, na opinião da entidade organizadora, faltava ao evento e que, desta forma, aumenta as opções de atividade nas áreas artísticas e para este público.

Por fim, outra oferta que vai existir é o espaço família, um lugar destinado a bebés, crianças pequenas e seus progenitores, onde estes podem estar e dispor de uma série de confortos menos comuns num festival, como um espaço para amamentação/alimentação e fraldário, e onde estará presente uma profissional da área da psicologia perinatal disponível para todo o tipo de esclarecimentos.

 

De que forma projetam a programação do festival?

A programação do festival projeta-se com a maior antecedência possível tendo-se, para esta edição, iniciado em janeiro, ou seja, cerca de 7 meses antes do evento. Para a edição de 2019 prevemos conseguir iniciar antes. E, uma vez que esta será a segunda edição, houve necessidade de reformular o desenho do festival (no que respeita ao número de oficinas e bailes por dia, horários,...) e de definir programação em espaços que antes não existiam: como serão dinamizados, por que tipo de artistas, que performances se adaptam melhor àquilo que se pretende oferecer. São muitas as etapas até se conseguir “fechar” com o artista, e toda essa gestão foi também uma novidade neste ano. Para o ano, muito do trabalho já estará feito. Em termos da contratação, a nossa estratégia passou por convidar artistas cujo trabalho melhor conhecíamos, e por considerar propostas enviadas por grupos, até o calendário do festival ficar completo. Consideramos que uma excelente forma de os artistas divulgarem o seu trabalho é dirigirem-se à entidade organizadora dos festivais e, caso não seja possível participarem na atual edição, essa divulgação poder-lhes-á abrir portas nas edições futuras.

 

Como realizam o envolvimento de parceiros e público para o vosso evento?

Querendo o Tradidanças afirmar-se no contexto de festivais de verão nacionais enquanto marca da região onde se insere, os nossos principais parceiros são os municípios vizinhos e aqueles que pertencem ao território das Montanhas Mágicas®, bem como os agentes económicos e sociais locais. O município de São Pedro do Sul e a União das Freguesias de Carvalhais e Candal, conforme foi referido, são nossos parceiros co-organizadores. O envolvimento destas entidades no festival passa por um apoio logístico financeiro à organização, divulgação e promoção do festival, venda de ingressos e, nos casos em que se aplica, promoção da participação dos seus munícipes e concidadãos no festival.

Quanto ao público, apostamos numa intensa divulgação nas redes sociais, principalmente no facebook, mas também no instagram. Somos um festival novo, e temos de marcar o nosso lugar apresentando uma oferta de atividades diferenciadoras, a acessibilidade dos nossos preços, e a beleza do nosso território. Acreditamos que precisamos de tempo para crescer e tornar-mo-nos mais conhecidos. O passa-palavra, neste tipo de festivais, contribui muito para esse crescimento.

 

Há espaço em Portugal para dois festivais para o mesmo nicho de público a ocorrer nos mesmos dias?

As datas do Tradidanças coincidirem com as do Andanças foi um assunto falado entre ambas as organizações, muito antes da sua divulgação. Preferencialmente, estes festivais deveriam acontecer em datas diferentes, de forma a permitir alguma colaboração entre os mesmos e a possibilidade do nicho de público (que adere aos festivais mais voltados para a música e dança folk) participar nos dois, mas chegou-se à conclusão que, este ano, ambas as organizações queriam mesmo que os festivais acontecessem na primeira semana de agosto. E assim foi, sem ressentimentos. Da nossa parte, a decisão aconteceu em conformidade com a Feira de São Mateus (um certame muito forte para a região de Viseu) que, ao iniciar no dia 9 de agosto (quinta-feira), faria com que o Tradidanças coincidisse com este evento, caso optássemos pelo segundo fim-de-semana. É um risco que optámos por correr e, para o ano, logo veremos.

 

O que podemos esperar do festival nas próximas edições?

Nas próximas edições o festival chegará mais cedo junto do público, através da divulgação de datas e artistas presentes, disponibilização de bilhetes, e de outra informação que considerarmos importante difundir junto do nosso público. Acreditamos que o grande salto será este ano (considerando o ano anterior). Daqui para a frente, sem dúvida que será possível melhorar a oferta geral nos serviços e nas atividades que o festival propõe.

 

De que forma a APORFEST e os eventos Talkfest e Iberian Festival Awards podem ser um suporte para o vosso desenvolvimento?

No que respeita ao Tradidanças, a APORFEST e os eventos Talkfest e Iberian Festival Awards  permitem o contacto com a rede de festivais o que é, desde logo, uma mais-valia para a afirmação do Festival Tradidanças na realidade dos festivais de música ibéricos. Considerando que se trata de um festival novo, o Tradidanças em muito ganhará com a existência de uma associação disponível para apoio em diversas áreas que dizem respeito à sua produção e promoção. A par disso, a existência de espaços de debate e partilha de ideias no Talkfest, bem como o premeio dos festivais em diversas categorias no Iberian Festival Awards convidam à participação de todos, e certamente farão com que o crescimento do nosso festival seja muito mais sustentado.  Assim o esperamos.

 

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