Transmissão em direto de festivais nos media comuns - ainda faz sentido?

19/07/2018

A chegada dos festivais de música ao público de uma forma aglutinadora de gerações e classes sociais em muito se deveu, em Portugal, na sua transmissão em direto na TV e na rádio, de meados da década de 90 até início da atual década, assim como o acompanhamento completo de alguns meios especializados escritos como o jornal Blitz. Hoje as transmissões existem, mas salvo (boas) exceções, que são também mais caras para o promotor porque os media de hoje necessitam de novas fontes de receitas que antes eram salvaguardadas pelos ganhos da publicidade, são mais para ter números (audiência) e cativar patrocinadores do que com um intuito de um bom acompanhamento editorial - transmissão integral de concertos (que não dá audiências), entrevistas aos artistas e profissionais que trabalham no evento e não tanto a diretores de marca. São míticas as primeiras transmissões neste campo da Sic Radical (em 2001, 2002 e 2003) que souberam misturar entretenimento com um acompanhamento permanente do festival ou da Antena 3 (em 1998) com o jornalista Álvaro Costa a indicar que a transmissão do Festival Paredes de Coura para Portugal só estava a ser feita devido ao transmissor estar em cima de uma das casas-de-banho portáteis.

 

As transmissões foram evoluindo e com o apogeu do online, deixou de ser fulcral que esse acompanhamento seja feito nos meios mais comuns - Tv, rádio, imprensa escrita - quando as novas gerações pouco a eles acedem. O estudo "Perfil do Festivaleiro e ambiente social nos festivais em Portugal" da APORFEST indicou na edição de 2017, que o impacto de procurar informação de um festival nas rádios, tv generalista ou por cabo é praticamente nulo. Da mesma forma, conseguir como antigamente a transmissão de concertos exige um preço maior no cachet dos artistas, nomeadamente os de maior dimensão e os que dão alguma audiência, sendo que o Rock in Rio é o único festival em Portugal que coloca o mesmo como garantia nos seus contratos procurando ainda através da transmissão de concertos, nos meios mais comuns, obter uma fidelização e renovação de público a cada edição.

 

Este ano assistiu-se a um novo fenómeno que foi o de um festival ter duas rádios associadas, de grupos diferentes - uma rádio oficial ligada ao festival e que garante o alcance a mais público mas que em virtude do seu posicionamento tem mais publicidade e não consegue fazer um acompanhamento no terreno mais inclusivo do mesmo em virtude de distanciamento da musicalidade do festival e da sua própria estratégia. É o caso do Nos Primavera Sound, com a Rádio Comercial a estar no evento e a promover o mesmo desde o momento zero de anúncio da sua edição mas nos dias do evento existiu também, uma transmissão da Antena 3 mais ligada ao acompanhamento editorial, sem anúncios, com entrevistas aos artistas e com transmissão de concertos. Algo impensável há alguns anos, a exclusividade de uma rádio, ser retirada nos dias do evento, mas assim chega-se a mais público, aquele que vai pelas massas e aquele que é mais fanático e que procura o contacto mais próximo com os seus executantes.

 

Hoje os grandes festivais têm, por norma, um acompanhamento nas televisões e rádios, mais por blocos de informação inseridos na programação dos canais de notícias (e.g. Sic Notícias, Tvi24, Rfm) que de uma forma consecutiva, mas os números obtidos em termos de audiências são superiores servindo para chegar a mais público, embora que o que chega é menos específico, menos melómano. A nível online é uma aposta cada vez maior a de se permitir um acompanhamento completo, com transmissão integral de concertos e que num futuro próximo, com a garantia de mais audiência neste campo, se dará origem a transmissões não apenas de um sinal dos palcos mas do acompanhamento com uma equipa própria, como o Festival Liberdade já fez com entrevistas a artistas através do podcast Maluco Beleza.

 

 Créditos: Vítor Cavalheiro (SBSR'2015)

 

 

 

 

 

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