Jardim sonoro, jardineiros e as várias espécies que habitam no Lisb-On. Entrevista: José Diogo Vinagre (resp. comunicação)

29/08/2018

Com cinco edições apenas se construiu um festival de referência para o nosso mercado e para o mercado internacional levando-nos a pensar se este festival estivesse num país com folga económica o que poderia acontecer ao seu conceito. Através da sua comunicação, critério musical e ambiente proporcionado conseguiu criar e fidelizar público junto de si numa rede de seguidores e parceiros que crescem a cada ano. Falámos com o responsável de comunicação do Lisb-On, José Diogo Vinagre, que irá ver finalmente regado o seu jardim ao longo de três dias, de 31/agosto a 2/setembro por mais de 30 artistas ou jardineiros!

 

 

APORFEST: É já uma mão cheia de edições em que Lisboa fica On, a 3ª edição com 3 dias de duração. É uma aposta para ficar? Que vantagens estão inerentes na este formato?

José Diogo Vinagre: Rapidamente ao fim de poucas edições foi entendido que a passagem de um formato de dois para três dias era natural - algo que acontece desde 2016. Ao termos um protocolo com o Município de Lisboa, em que somos responsáveis por criar uma forte programação no festival e pela cidade no fim-de-semana foi natural  adicionar assim o domingo que é o dia da família. Temos o jardim que se comporta como um jardim sonoro que tem um dia específico para unir a família - nestes dia as portas fecham inclusive mais cedo, temos mais artistas neste dia e está-se a ir ao encontro do que pretendemos comunicar que este é também um festival diurno. Por outro lado em termos de produção adicionar mais um dia mitiga alguns dos custos fixos (e.g. aluguer estruturas - som, contentores; licenças) e potencia-se a venda de bilhetes ajudando a amortizar o investimento.

 

Que pontos destacam da edição de 2018 em termos de programação?

Temos um cartaz diversificado com 30 artistas e com a novidade de todos os palcos estarem em funcionamento logo desde o primeiro dia. O Lisb-On é cada vez mais um festival que se diversifica não esquecendo a origem que é a eletrónica mas indo ao encontro de sonoridades pares como Bossa Nova, Jazz, Funk, House e Techno. Os cabeças-de-cartaz foram escolhidos a pensar nisso: Todd Terje e Michael Mayer no primeiro dia; St. Germain (ao vivo), Maceo Plex (com um set especial propositado para os festival de 5 horas, isto poque depois do nosso convite o artista gostou do nosso conceito e prometeu-nos isto só para o nosso "jardim" o que nos deixa muito curiosos de como vai correr e que tipo de sonoridade irá apresentar) no dia 1 de setembro e no último dia, mais familiar, teremos como "jardineiros" principais Mr. Fingers aka Larry Heard (guru da míusica) e Kerry Chandler (que já esteve no festival mas não a fechar mas que representa a sonoridade do Lisb-On). Queremos que o festival viva por mais 10, 15, 20 anos e por isso queremos contar uma história que ainda teve os seus primeiros capítulos e que precisa de ser entendida por todos. No ano passado foi a planta, este ano o lixo e espécies que frequentam o "jardim" em que cada artista cabeça-de-cartaz está caracterizado pela sua que o define (ver vídeo abaixo).

 

Continuam a apostar em parcerias que prolonguem o vosso festival para fora do recinto no Parque Eduardo VII?

O programa de associados do festival começou, na primeira edição, com 10 atividades e este ano teremos 30/35 atividades - a mancha pela cidade de Lisboa está a aumentar. Procuramos expandir o Lisb-on não só no recinto mas alargar para outros horários e para uma semana que põe viva a cidade com parcerias, descontos, atividades culturais, refeições ou discotecas. Procuramos, para 2018, potenciar a qualidade no recinto e crescer com a cidade e parceiros destacando também a continuidade da nossa causa social em que os leftovers advindos do cashless dos festivaleiros são doados para a Casa dos Animais de Lisboa - no ano passado conseguimos doar 12 mil euros desta forma e este ano pensamos obter mais para doação em virtude de termos mais público.

 

O conceito do Lisb-On foi também inovador - o cuidado com o público, o dar música eletrónica muito cedo e tornar isso um evento familiar - que fez com que existam hoje festivais que tentam replicar o mesmo conceito. Como se sentem nesse ponto?

É uma vitória, para nós, ver outros conceitos similares a nível nacional e internacional, sabemos que a nossa marca já deixou um legado e isso é ponto assente. A concorrência obriga-nos a estar atentos e a evoluirmos também. Fomos possivelmente o primeiro festival com aplicação da tecnologia cashless em Portugal, no ano de 2015, mas que nos trouxe alguns problemas e isso obrigou-nos a crescer e estar mais atentos, aprender com erros e evoluir (e.g. introdução do Mb Way nos festivais e ter um palco totalmente regido a energia solar encontraram no festival primeiras ações em Portugal). O nosso festival é uma referência para diferentes festivais e orgulha-mo-nos que os nossos concorrentes utilizem também os nossos parceiros e fornecedores. Estamos confiantes com o temos percorrido até aqui.

 

Conseguirão ser sempre independentes sem naming sponsor?

Não posso dizer nunca, mas não é algo que temos no enfoque do nosso trabalho. Não queremos que qualquer marca altere o seu e o nosso formato por estar envolvida no Lisb-On. Esse apoio a existir de um naming partner passará por apoio financeiro em que o prémio é estar associado ao festival - é outro ponto de percepção que nem todas as marcas têm. Tivemos muitas marcas a querer estar presentes de diferentes áreas, ao longo das edições, mas entendemos que a exposição que as mesmas pretendiam não fazia sentido na nossa estratégia. Não queremos que se desvirtue o nosso conceito uma vez que a experiência do festival é sempre a música.

 

A título de exemplo não avançámos com algumas marcas porque queriam dar um brinde e nós não permitimos brindes, não temos comunicação física no festival, porque não traz nada ao mesmo e ao público - se oferecerem algo que seja algo que acrescente valor à experiência como a Jameson que vai voltar com a barbearia, a Absolut com um lounge e a Seat que se apresenta com um carro e dentro do porta-bagagens estarão garrafas de água para quem sair do recinto. Não queremos que a pessoa esteja numa fila de uma marca em vez de ir e ouvir musica. As marcas que estão connosco percebem a boleia que levam por estarem associadas a nós e por isso hoje são mais marcas a estar presentes não pela exposição mas pelo encaixe de ambas as estratégias.

 

Que percentagem de público internacional frequenta o Lisb-On?

O nosso principal público ainda está em Lisboa. Fora de Lisboa temos alguma dificuldade em perceber de onde vem o mesmo nomeadamente em quem compra bilhetes físicos - facto muito comum ainda em Portugal. As ferramentas das bilhéticas - compras online (e.g. Ticketline, Paylogic, Festiciket) indicam que até tivemos 12% do público internacional e em 2017 quando começámos a trabalhar a comunicação externa aumentámos para 30% e percebemos que destes mais de 70% vieram de propósito a Portugal para o Lisb-On, ou seja, de 5 mil pessoas internacionais tivemos 3 mil apenas com o propósito de viajarem pelo festival. Este ano os dados não estão fechados mas vamos ter cerca de 6000-6200 turistas e ainda se deverão adicionar outros que acabam sempre por ser impactados na cidade.

 

Que podemos esperar nos próximos 2-3 anos? Teremos edições noutras cidades?

O Lisb-on vai continuar a crescer, de edição para edição, mas é prematuro dizer que vamos para outras cidades. O Lisb-on tem uma capacidade de comunicação grande (temos alguns prémios que assumem esse reconhecimento) com razão de viver a longo prazo mas não queremos que este assuma um público de 40 ou 50 mil pessoas, pois iria desvirtuar o conceito. O cabeça-de-cartaz como outro artista têm o mesmo destaque uma vez que o line-up se apresenta por ordem alfabética. Poderemos evoluir e fazer outros eventos mas nunca um outro Lisb-on que seja uma replicação deste. Temos uma história para continuar que não quererá nunca passar a barreira dos 15-20 mil pessoas, pois o espaço (Parque Eduardo VII) não o permite e queremos que ele continue a ser sempre protegido, é o nosso "jardim" e por isso temos uma preocupação cada vez maior em termos sustentáveis (e.g casheless, copos reutilizáveis, palco a energia solar).

 

De que forma a APORFEST e os seus eventos profissionais como o Talkfest e os Iberian Festival Awards têm ajudado a desenvolver o festival?

A Aporfest é um dos principais parceiros nossos não só para o Lisb- on como para o Lisboa Electrónica e creio que serve de muita ajuda para os nossos festivais. O networking que permitem, as respostas céleres e eficientes e até mesmo o contacto direto com entidades governamentais permitem agilizar toda a nossa estratégia ao longo do ano.

 

 

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