ENTREVISTA - A 22ª edição do Festival MED tem nova direção artística e estratégica apontando à diversidade musical, geográfica e de programação, com Paulo Silva (Diretor do Festival)
- há 3 dias
- 8 min de leitura
Há mais de duas décadas que o Festival MED transforma o centro histórico de Loulé num dos mais vibrantes pontos de encontro cultural da Europa. Nascido em 2004, o festival evoluiu de uma celebração das culturas mediterrânicas para uma referência internacional da world music, distinguindo-se pela capacidade de reunir artistas, tradições, gastronomia, artes visuais e património urbano numa experiência imersiva única. Ao longo da sua história, o MED consolidou-se como um dos mais relevantes festivais culturais portugueses, atraindo milhares de visitantes nacionais e internacionais às ruas, praças e monumentos da cidade algarvia.
A edição de 2026 marca um novo capítulo para o festival, agora sob a direção e programação de Paulo Silva, que assumiu o desafio de reforçar a identidade musical do MED e reposicioná-lo como uma das principais referências europeias da música do mundo. Apresentada como a edição mais internacional de sempre, contará com artistas provenientes de cerca de 30 países, mais de 50 concertos e centenas de músicos distribuídos por cinco palcos principais, reforçando a vocação do festival para a diversidade, interculturalidade e descoberta artística. Entre as novidades deste ano destacam-se ainda a ampliação do recinto, a criação do MED Lounge, uma maior integração do Mercado Municipal de Loulé e o conceito “Cidade MED”, que pretende aproximar ainda mais o festival da cidade e da comunidade local.
No cartaz de 2026 destacam-se nomes incontornáveis da música mundial como Seun Kuti & Egypt 80, Tiken Jah Fakoly, Orchestra Baobab, Asian Dub Foundation, Bonga, Lura, Los Van Van, Arooj Aftab, Natacha Atlas, Sérgio Godinho, Arnaldo Antunes, Groundation e Expresso Transatlântico, entre muitos outros. Um alinhamento que espelha a essência do MED: uma verdadeira viagem musical pelo mundo, onde diferentes geografias, línguas e culturas se encontram em Loulé durante quatro dias de celebração. Nesta entrevista, conversamos com Paulo Silva sobre a visão para esta nova fase do festival, os desafios de programação, a afirmação internacional do MED e o papel que continua a desempenhar na valorização cultural e turística do Algarve e de Portugal.

1.O Festival MED entra numa nova fase de direção artística e estratégica. Que visão pretendem implementar para os próximos anos e quais serão os principais indicadores de sucesso desta edição — público esperado, impacto económico, ocupação turística ou crescimento internacional do festival?
Desde logo queremos voltar a ter na música o grande foco, sem, naturalmente, descurarmos tudo o resto, todas as manifestações artísticas e atividades paralelas. Queremos sublinhar, a cada ano, a diversidade musical e geográfica, sempre com a tónica na qualidade artística. Isso exige da nossa parte um trabalho de pesquisa profundo, muitos contactos, a presença em diversos certames, espetáculos, outros festivais, para descobrirmos artistas que consigam trazer novas experiências sonoras aos visitantes. Queremos, cada vez mais, ser reconhecidos como um festival de excelência no campo da música, um elemento que, nos últimos anos, tem sido um pouco atenuado por tudo o que gira à volta do MED. Mas, volto a sublinhar, sem nunca esquecer todo o programa paralelo.
Por outro lado, este ano vamos ter algumas novidades que visam a melhoria da vivência desta experiência em termos de acesso ao recinto, ampliação do mesmo, mobilidade, oferta gastronómica. Mas uma dessas novidades – a Cidade MED – enquadra-se noutra das nossas apostas estratégicas: transformar o Festival numa experiência urbana contínua, que extravase as datas do próprio evento. Este ano, a partir de 23 de maio, data da apresentação final, arranca uma “campanha” que passa pela decoração de toda a cidade (e não só da Zona Histórica) com elementos alusivos ao festival, a abertura da Loja MED e um envolvimento do comércio tradicional, do setor da restauração e também do movimento associativo. Queremos que quem nos visite, mesmo fora da época do MED, compreenda que Loulé vive esta energia muito tempo antes.
Para esta edição, mais do que uma casa a rebentar pelas costuras, queremos ver um público satisfeito com a qualidade das experiências vividas nestes dias do Festival. Naturalmente que, para nós, será importante o retorno económico e o impacto na economia local mas, pelos dados que temos até ao momento da ocupação hoteleira prevista para as datas do MED, não tenho dúvidas que o MED continuará a ser determinante para o tecido económico do concelho. Acreditamos que o cartaz que apresentamos poderá potencializar o crescimento internacional nesta edição.
2.O Festival MED tem uma identidade muito própria ligada à world music, ao espaço urbano histórico e à multiculturalidade. Num contexto europeu cada vez mais competitivo entre festivais, como pretendem atualizar e reforçar esta identidade sem perder a autenticidade que distingue o MED há tantos anos?
O Festival MED tem-se afirmado como um evento fora do mainstream e penso que é isso que faz toda a diferença e que, face a essa competitividade, o MED consiga sobressair pela sua singularidade. Desde logo os alinhamentos musicais são distintos e, para a grande maioria dos visitantes, constituem sempre uma surpresa. É um evento multicultural, e este ano vamos ter 30 nacionalidades representadas, de várias latitudes, o que espelha bem essa aposta. Por outro lado, o MED é também uma imersão cultural urbana, num Centro Histórico de Loulé com o seu património único, onde podemos encontrar, por exemplo, os Banhos Islâmicos mais completos da Península Ibérica e isso, só por si, é algo inigualável.
Para responder à crescente concorrência europeia e garantir que o festival mantém a sua autenticidade, a Câmara Municipal de Loulé tem vindo a implementar várias medidas estratégicas de modernização e diferenciação, novidades que vão acrescentado mais-valias que passam pelos espaços, como vai acontecer este ano com o MED Lounge, até simples coisas como um doce associado à marca – o MED’lhado. Inovamos mas sem nunca desvirtuar o ADN do evento.
3.Para os profissionais do setor, interessa perceber também a dimensão operacional do evento. Quantas pessoas estarão envolvidas nesta edição entre produção, técnica, segurança, voluntariado, restauração e parceiros locais? E qual o peso do investimento na economia local de Loulé e do Algarve?
A quase totalidade das pessoas envolvidas são recursos humanos da própria Autarquia, perto de duas centenas de pessoas, de áreas que vão da operacionalização, à comunicação, da receção aos artistas, aos artesãos e setor gastronómico ou venda de merchandising. Depois a Câmara recorre a empresas ligadas à luz, ao som e aos palcos pois são áreas às quais não temos capacidade de dar resposta direta.
Há ainda a referir as entidades ligadas à segurança (empresas privadas, forças de segurança ou equipas de emergência médica), o movimento associativo local, a comunicação social que é nossa parceira, sobretudo os media partners e que vão ter equipas a fazer a cobertura no local (televisão e rádio públicas, jornal Público e RUA FM), outros parceiros locais como o Loulé Design Lab responsável pela reciclagem de
materiais que servirão não só para a decoração de espaços como também para a criação de merchandising.
4.Um dos grandes desafios atuais dos festivais é equilibrar crescimento com sustentabilidade financeira e ambiental. Que medidas concretas estão a implementar nesta edição ao nível da gestão de resíduos, mobilidade, energia, fornecedores locais ou redução de custos operacionais? Há metas ou números que
possam já partilhar?
A sustentabilidade tem sido uma imagem de marca do Festival MED ao longo das últimas edições. Neste campo, as iniciativas têm permitido um impacto muito positivo naquilo que é a redução da pegada ambiental, como o lançamento do copo ecológico, que veio reduzir substancialmente o plástico no local. Este ano iremos lançar o Manual do Bom Festivaleiro, um Guia de Boas Práticas para Eventos Sustentáveis, que pretende inspirar e mobilizar todos os visitantes do Festival MED a fazerem parte de um evento mais sustentável, contribuindo ativamente para a redução da sua pegada carbónica. Serão pequenas dicas que cada um pode adotar para contribuir para a mudança e ajudar a criar um festival com menor pegada carbónica. Mas a sustentabilidade não se prende apenas com as questões ambientais, mas também sociais, e aqui estarão vertidas iniciativas como a consciência em termos de desperdício alimentar e o movimento Zero Desperdício.
Outra das iniciativas que iremos lançar prende-se com a medição da pegada do evento, através de um inquérito onde são aflorados os hábitos dos festivaleiros durante estes dias, por exemplo de que forma se deslocam. Iremos aferir esses números no final desta edição.
5. O Festival MED sempre teve uma forte ligação à descoberta artística e à circulação internacional de artistas. Que estratégias estão a desenvolver para reforçar o posicionamento do festival junto de agentes internacionais, programadores e mercados da música?
Para consolidar o seu papel de “plataforma” de descoberta artística, a sua estratégia foca-se na integração em redes de mercados profissionais. A equipa do Festival marca presença constante nas maiores plataformas profissionais de World Music, como a WOMEX (Worldwide Music Expo). Há largos anos que participamos neste certame, mas se, no início, éramos nós que procurávamos os artistas, hoje em dia somos inundados com propostas artísticas durante este evento. Isso mostra bem como o Festival MED cresceu e se tornou uma referência desta indústria.
O MED participa igualmente em encontros e painéis de discussão, como é o caso do Talkfest, promovido pela APORFEST. É também desta troca de ideias e experiências que crescemos.
6. O MED é também conhecido pela experiência imersiva na cidade, envolvendo gastronomia, artesanato, decoração urbana e comunidade local. Que novidades ou curiosidades desta edição acreditam que vão surpreender tanto o público como os profissionais do setor? Há algum número, bastidor ou detalhe de produção que ajude a perceber a escala e singularidade do festival este ano?
Esta 22ª edição marca um novo ciclo na vida do MED e com ele vêm também algumas novidades que pretendem melhorar a experiência do visitante. O recinto será ampliado na Praça da República e na Rua Martim Moniz, uma melhoria significativa na fluidez, circulação e segurança dos visitantes. No Largo de S. Francisco é criada uma nova entrada, enquanto que o emblemático Mercado Municipal de Loulé ficará totalmente integrado dentro do recinto. No seu interior, haverá também uma programação musical.
Outra das inovações será o sistema de bilhética: o público em geral só precisa de bilhete, seja ele físico ou digital, e ao contrário dos anos anteriores, não será necessário fazer a troca por uma pulseira (apenas para organização ou residentes). Será implementado o Ciclo de Conferências MED, com a realização de uma conferência no dia 26 de junho, mas também outros momentos ao longo do ano onde serão abordados temas ligados ao Festival e aos eventos em geral, criando uma dinâmica à volta da programação do concelho, uma plataforma cultural contínua.
Pela primeira vez, será integrada uma exposição interativa, com uma componente pedagógica e participativa. Os palcos principais terão uma nova estética e todos eles irão apresentar uma imagem diferente, reforçando a identidade MED. Junto à Igreja Matriz, será criado o MED Lounge, um espaço de descompressão, com decoração temática (da autoria de Elsa Guerreiro), animado por DJ sets que irão
O conceito CIDADE MED, já aberto, reforça. a decoração temática por várias zonas da cidade e ativações da marca MED no centro da cidade, bem como no Mar Shopping, até ao início do Festival. Concertos e animação de rua serão alguns dos momentos que irão surpreender os transeuntes. Esta abordagem,
que incentiva à participação da comunidade, reforça a ideia de que o MED transcende o recinto, constituindo-se como uma experiência coletiva e uma forma de viver Loulé. Também os sabores do Festival serão “ativados”, através de uma doce criação – o MED´lhado - o folhado oficial da edição de 2026.
Créditos: Fotos e Vídeos (Festival Med 2025)
















Comentários