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Água nos Festivais de Verão – situação atual em Portugal e lá fora

Com o tempo chuvoso no fim do mês de junho, não se faria esperar uma subida de temperaturas tão drástica nas seguintes semanas. Como tal, e com a chegada dos festivais de verão, diversas medidas tiveram que ser prontamente tomadas pelos seus promotores para assegurar que os festivaleiros pudessem desfrutar dos mesmos da melhor maneira possível. Ainda assim, os comentários oferecidos pela lente do público apontam para a insuficiência de esforços neste campo.


Após uma crise pandémica que criou um enorme défice no setor festivaleiro e, consequentemente, nos seus players, foi necessário um drástico empenhamento para que a retoma dos festivais fosse possível no presente ano. O público parecia animado com o reaparecimento e medidas anunciadas para prevenção do contágio do vírus SARS-CoV-2 até se deparar com um novo obstáculo que poderia atrapalhar a sua diversão. O boletim meteorológico apontava para os 37º na primeira semana de julho, prevendo uma subida até aos 45º nas seguintes semanas. Alguns organizadores foram obrigados a alterar o espaço onde os seus festivais iriam ocorrer, mesmo em cima do acontecimento, como o caso do festival Super Bock Super Rock. Outros optaram por modificar as suas políticas de acesso, permitindo a entrada de garrafas de água com tampa, desde que até 33cl ou, posteriormente no pico da temperatura, 50cl para que os festivaleiros pudessem reencher as suas garrafas nos bebedouros e, porventura se o saneamento o permitisse, nos lavatórios.

Créditos: Sharpa Land

O Rock In Rio, em colaboração com a Fonte Viva, criou uma excelente conceção de oferta de água no recinto, sendo que estavam dispostos bebedouros da marca para que todos pudessem reencher as garrafas de 33cl ou os copos de água. No entanto, é sabido o quão desconfortável se torna ter que explorar um festival com uma garrafa aberta ou copo na mão sujeitando-se a entornar em cima do próprio ou do próximo. O Nos Alive também tomou as devidas medidas assegurando copos recicláveis de água gratuitos servidos por colaboradores, em formato de mochila, em parceria com os SMAS de Oeiras. Esta providência poderia ter resultado, não fosse existir um enorme défice de colaboradores na zona dos concertos, onde a água é mais requisitada. Na altura em que o calor já não era suportável e o público estava queixoso, os seguranças começaram a fornecer garrafas de água, ação essa que foi bastante congratulada por parte dos festivaleiros - uma questão que foi mitigada nos últimos 2 dias festival.


A exigência de água gratuita nos festivais é um requisito já há muito solicitado por parte do público, especialmente quando se depara com o calor insano observável durante esta época do ano e questionando a respetiva responsabilidade social das entidades. Contudo, a envolvente comercial parece ainda não dar primazia a esta questão e o patrocínio das marcas necessárias para apoio à ocorrência do festival não suportam tamanhos gastos. Assim sendo, e mesmo dando entrada a garrafas de 50cl com tampas nas horas de maior calor, a espera pelo abastecimento das mesmas parece ter formado longas filas, o que acabou por prejudicar o aproveitamento dos concertos e dos momentos de diversão nalguns festivais. No espetro oposto encontram-se os festivaleiros que fazem espera horas antes das portas se abrirem para chegarem a uma primeira fila desprovida de apoios gratuitos. Num dia de festival esgotado faziam-se ouvir comentários, a meio de vários concertos e nos intervalos dos mesmos, em requisito por garrafas de água. “Estou a aguardar por este concerto há cinco anos e estou no local desde as 10 da manhã. Não faz sentido perder agora o meu lugar e o concerto ao qual paguei um balúrdio para ir para uma fila interminável encher a minha garrafa de água” fazia-se ouvir. É de reter que nos intervalos, e somente em certas horas e determinados festivais, se vê passar um ou outro assistente com um barril refrigerado às costas nas filas da frente para vender garrafas de água num valor, em média, de 2€ por garrafa.

Conforme referido pelo Consumidor Global à conversa com Félix Martín, perito em segurança alimentar, no verão, devido ao suor, produz-se uma maior evaporação da água e é essencial repô-la. Neste sentido, um festival esgotado deve ter em atenção todas as suas frentes, nomeadamente os festivaleiros que se encontram no meio de uma multidão, ao calor, o que dificulta os seus acessos à área em que a água é gratuita. Com necessidade de hidratação acabam por ter de gastar mais de metade do valor gasto no bilhete em água. Questiona-se, portanto, toda a panóplia de opções oferecidas e a forma como as mesmas são geridas para com o público que, ainda existindo uma maior preocupação pela causa/efeito, parecem nutrir sempre um cariz comercial primeiramente. Numa outra perspetiva pudemos compreender a visão das marcas que necessitam do lucro para operacionalizar e fornecer serviços de água aos festivaleiros. Não seria suportável fornecer água mineralizada sem qualquer tipo de feedback e o mesmo ocorre com os próprios organizadores dos festivais.


Nas redes sociais os festivaleiros dão as suas opiniões e manifestações de como a questão poderia ser solucionada. Fala-se em borrifadores de água gratuitos, ventoinhas de grande porte, irrigadores de água em determinados momentos, como vistos no Festival S2o (Coreia do Sul) ou Sziget (Hungria), ou através da ação dos bombeiros voluntários de Idanha-a-Nova, no Boom Festival, que enxaguam o público com mangueiras. Também é idealizada uma junção da ação de oferta de copos recicláveis de água gratuitos, produzida pelo Nos Alive, com a ação criada pelo Primavera Sound Barcelona, onde existiram bancas com garrafas de água gratuitas de 33cl sem tampa fornecidas pelos funcionários ao público, até que não existissem mais em stock. Uma ideia surgida em função das ações de marketing, por parte dos parceiros, seria ativações de marca com pulverizadores de oferta, os quais poderiam ser reenchidos no próprio festival. No mesmo espetro comercial fala-se na ativação ou pagamento (2€ max.) por uma garrafa reciclável fechada que pudesse ser reabastecida em qualquer ponto, existindo um pedido de reforço por assistentes nos festivais que pudessem distribuir água, em especial na zona de concertos. Para que tal possa suceder, existe uma enorme necessidade de colaboração das câmaras municipais para que os organizadores de festivais, patrocinadores, parceiros e prestadores de serviços possam, efetivamente, ter meios para dispor de um número de litros tão colossal nos seus eventos, sem que exista uma enorme perda monetária e para que os festivaleiros possam desfrutar a 100% do festival. Outra opção visível seria comprar a garrafa reciclável, sendo os custos posteriores da água reduzidos, acabando por ser até mais sustentável, diminuindo o consumo através de garrafas plastificadas e mantendo algum lucro para as marcas em questão, sendo este suportável ao público.


A questão da sustentabilidade e consciencialização já tem sido abordada diversas vezes e parece estar, cada vez mais, a tomar o rumo correto para que os festivais se tornem eco-friendly. O Super Bock Super Rock permitiu nesta edição que os copos reutilizáveis de qualquer outros eventos pudessem entrar. É nesse caminho que o foco dos organizadores deve estar para que não existam desperdícios. Há formas de contornar a questão e, ainda assim, apelar ao consumo das marcas e à utilização consciente da água potável disponibilizada, sem que o festivaleiro passe por dificuldades ou se sinta mal pelo simples facto de não ter opções de hidratação.


Com as alterações climáticas que vivemos, e o aumento do calor e número de dias com "ondas de calor" será esta questão ainda mais primordial no planeamento e execução dos festivais de verão e ao ar livre com grandes fluxos de público. Qual a solução mais adequada?

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