Artes à Rua e a multiplicidade cultural do município de Évora. Entrevista: Luís Garcia (programador cultural)

24/09/2019

O Festival Artes à Rua é o festival de arte pública, organizado pela Câmara Municipal de Évora, e que teve a última edição de 13 de Julho a 5 de Setembro de 2019. Este consiste-se na programação de atividades culturais das diversas áreas artísticas e na abertura de uma chamada para novas criações dirigida a criadores e agentes culturais do concelho. Totalizou a apresentação de 157 espetáculos, mais de 50 novas criações das áreas artísticas da Música, Teatro, Dança, Performance, Artes Circenses, Cinema, Vídeo Arte, Fotografia, Escultura, Pintura e Literatura. Estivemos à conversa com Luís Garcia, programador cultural do município de Évora.
 

APORFEST: Na atualidade o Município de Évora é um dos que mais tem trabalhado na fomentação de uma programação cultural anual em Portugal. Este é um trabalho que leva quanto tempo?

Luís Garcia: É um trabalho transversal, em concreto o "Artes à Rua" vai já para a sua 3ªedição sendo criado com o intuito de retomar um festival chamado Viva à Rua que terminou há quase dez anos (em 2001). Quisemos retomar isso, mas com características inovadoras, uma “chamada para artistas”, onde se desafia criadores e públicos a relacionarem-se entre si no espaço de todos - a Rua. Tentamos ter sempre um trabalho continuo e elementos diferenciadores. Portanto este trabalho mais artístico, por assim dizer, já ocorre há bastante tempo e queremos fazê-lo de forma sustentada.

 

Esta programação serve então um propósito anual e não apenas numa chamada "época alta", correto?

Sim, como disse anteriormente o Artes à Rua é um trabalho contínuo, que ocupa grande parte do ano civil. A tal “chamada para artistas” ocorre em fevereiro, o que alimenta depois a atividade de criação ao longo do ano, até setembro. Temos também toda a restante programação paralela organizada no Teatro Garcia de Resende e não só, ou seja, podemos inserir atividades noutros pontos e eventos da cidade.

 

Esta atividade incessante será para manter nos próximos anos? Qual a estratégia?

Pretendemos que a componente cultural do município esteja presente para oferta aos seus visitantes e moradores durante bastante tempo. Estamos a candidatar-nos a Capital Europeia da Cultura em 2027 e por isso tudo se projeta muito para além dessa data, pois a candidatura parte do pressuposto de uma continuidade. Évora assume-se como centro da cultura contemporânea, e também como centro de exportação de objetos artísticos.

 

Como é feito esse trabalho de angariação de público junto da comunidade e a nível externo?

O município apresenta programação ao longo de todo o ano, e é parceiro de outros festivais em Évora. A estratégia de captação do Artes à Rua por exemplo acaba precisamente por trazer um grande evento cultural à rua, nas praças e outros locais. Intercala-se com o percurso quotidiano das pessoas.

 

Como dotam o município de infraestruturas para receber este aumento de público?

É um processo evolutivo. À medida que surgem mais necessidades tem que haver também maior capacidade de resposta. Évora tem também uma candidatura a um programa de reabilitação urbana, ou seja, de financiamentos atribuídos a espaços culturais como o Cinema Salão Central, que precisa de obras de reabilitação profundas e o Teatro Garcia de Resende, para obras de manutenção.

 

Que eventos são hoje referência do município e porquê?

São mais que muitos, queria mesmo lembrar-me de todos! Obviamente o Artes à Rua, penso que por razões óbvias. Temos também outro evento com este conceito de rua, que é o Livros à Rua, uma feira do livro. E muitos outros, entre os quais: Évora Jazz Fest, Festival 20.21 Évora Música Contemporânea. Acolhemos também o Soam as Guitarras, Capote Fest, BIME - Bienal Internacional de Marionetas de Évora, FIDANC - Festival Internacional Dança Contemporânea, entre muitos outros. Todas estas iniciativas com o intuito de dinamizar o município e serem fontes de cultura e aprendizagem.

 

O Artes à Rua é o vosso evento baluarte? Porquê?

Sim, porque atinge mais público e tem maior duração no tempo. Este incentiva novas criações e muito trabalho ao longo do ano, nos mais vastos campos da arte - Música (Clássica, Contemporânea, Antiga, Jazz, Tradicional, Folk, Moderna, Hip-Hop, Rock), Teatro, Dança, Performance, Artes Circenses, Cinema, Vídeo arte, Fotografia, Escultura, Pintura, Literatura. Todos estes apresentam uma grande parte da cultura eborense. Faço pessoalmente convites a artistas de música já conhecidos a criarem novos projetos, para aqui, também.

 

O Artes à Rua provocou ainda quatro novas criações que resultaram de desafios feitos a artistas  de várias latitudes geográficas e culturais:

1 - Omiri Alentejo Volume 1 Évora: desafiámos o Vasco Casais a montar um espectáculo a partir da paisagem sonora do concelho. Em cerca de 6 meses contactou, recolheu e gravou manifestações artísticas populares, individuais e colectivas, por todo o concelho, envolvendo algumas centenas de pessoas. Desse trabalhou resultou o espectáculo de abertura do Artes à Rua;

2 – Mulheres de Palavra: resultou de um desafio a mulheres para um encontro muito improvável. Uxia veio da Galiza, Emmy Curl da Dinamarca, Mynda Guevara de Lisboa/Cova da Moura, a Mara e as Vozes do Imaginário foram as anfitriãs e foi por cá que todas se encontraram para criarem, com a ajuda do Luís Varatojo, um espectáculo único  de homenagem à Mulher, que cruzou sonoridades tradicionais, hip-hop e música electrónica;

3 – Mar-Planície: o desafio foi um encontro pouco provável entre a musica de improvisação e o Cante. Carlos Martins compôs, o José Luís Peixoto criou novos poemas, o José Manuel Rodrigues emprestou as fotografias que compuseram o cenário virtual e os Cantares de Évora juntaram-se ao Manuel Linhares e cantaram;

4 – Dentro de mim a Muralha – Outra Respiração, do Recanto dos Amores ao Matadouro uma performance em dois capítulos: Proposta de intervenção cultural e artística na comunidade, que propiciou a gente de extractos socio-culturais, sociop-rofissionais e etários muito diversos a experimentação da performance artística. 

 

Quantas pessoas prevêem receber até final do ano na vossa programação?

São mais de 100 espetáculos (mais precisamente 150) que envolvem muitos artistas e técnicos que no seu conjunto representam cerca de 1000 pessoas. Prevemos que sejam criadas cerca de 50 novas criações e que se atinja um público constituído por cerca de 120 000 pessoas.

 

De que forma a APORFEST e os seus eventos principais como o Talkfest e Iberian Festival Awards ajudam no desenvolvimento da área dos festivais em Portugal?

Ajudam imenso porque este mundo é uma constante aprendizagem. Aprendemos muito com os novos testemunhos que podemos ouvir no Talkfest. E é muito gratificante ver iniciativas nossas nomeadas para os Iberian Festival Awards. No seu conjunto é uma parceria fundamental.

 

Um Festival não é um somatório de propostas artísticas, um Festival, este Festival, é um sistema partilhado, colaborativo, de criação e fruição cultural e artística, que emerge de um território e interage com o património material e imaterial recriando lugares de vida. Este Festival é uma referência de resistência ao isolamento e individualismo, à formatação do gosto, à automação das existências, à elitização das artes e da cultura, a uma visão dominante da história e do património que hipoteca a liberdade ancorando-nos ao passado. Este Festival é um manifesto colectivo, em construção, pela democracia cultural, pela livre criação e fruição das artes e da cultura. Este Festival é um lugar de desconstrução da tradição, enquanto matriz simbólica de objectos desvitalizados e cristalizados, e de construção de identidades assentes na inter-culturalidade, na paz e na liberdade. Este Festival assume a marca profunda daquilo que Évora é para vir a ser Capital Europeia da Cultura em 2027: um centro de criação contemporânea e de produção de pensamento crítico. Por tudo isto, pela diferença que distingue o AR da maioria dos Festivais, há quem lhe chame um não Festival, que se viva então o Não-Festival!

 

 

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