Quando a música clássica é uma referência em 39 edições. Entrevista: João Marques (Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim)

22/06/2017

Um dos festivais mais representativos em Portugal de música clássica, o Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim ocorre já no próximo mês, potenciando a sua programação através de concertos e dinâmicas entre os artistas presentes que diferenciam cada vez mais o festival, que o tornam como um lugar único para ouvir e aprender música. Falámos com João Marques, da direção do festival e da Associação Pró-Música da Póvoa de Varzim.

 

APORFEST: Vem aí a 39ª edição do Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim, o que podemos esperar?

João Marques: A edição de 2017 do Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim (FIMPV) dará sequência às linhas mestras do seu património identitário, explorando as habituais quatro matrizes nucleares numa envolvência de serviço público e de franca e universal acessibilidade. Privilegia desde logo a apresentação de ilustres convidados de nível internacional. No âmbito da música antiga ‘historicamente informada’, além do regresso do cravista Pierre Hantaï, destaque para três estreias no FIMPV: o Ensemble Masques com os cravistas Jean Rondeau e Olivier Fortin, a Cappella Mediterranea e Mariana Flores sob direcção de Leonardo García Alarcón, a Capella Sanctae Crucis com Tiago Simas Freire, e Die Kölner Akademie dirigida por Michael Alexander Willens e colaboração de Ronald Brautigam (em fortepiano).

 

O apoio aos músicos portugueses e à nova música concentra-se no 10º Concurso Internacional de Composição da Póvoa de Varzim (CICPV), cujo encerramento estará a cargo de Afonso Fesch (violino), António Saiote (clarinete), Filipe Quaresma (violoncelo) e Miguel Borges Coelho (piano) e ainda pelo Ensemble Clepsidra (direcção de José Luís Borges Coelho). E no concerto pela soprano Raquel Camarinha, com o pianista Yoan Héreau e o Quarteto Verazin (programa dedicado à música francesa inspirada em Paul Verlaine). Falta referir o aguardado recital de piano protagonizado por Raúl da Costa. A completar a programação nuclear – que abrirá com o musicólogo Rui Vieira Nery (conferência integrada nas celebrações do 450º aniversário do nascimento de Claudio Monteverdi) –, sublinhe-se o regresso de dois expoentes do circuito artístico internacional – o Pavel Haas Quartet (quarteto de cordas) e o pianista Alexander Melnikov. E dois concertos com música sinfónica a cargo da Orquestra Metropolitana de Lisboa e da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música: o primeiro, dirigido por Pedro Amaral, tem como solista o percussionista Agostinho Sequeira (‘Prémio Jovens Músicos da RTP Antena 2 – 2016’); no segundo, Raquel Camarinha intervirá de novo, desta vez sob direcção de Martin André.

 

O FIMPV 2017 dará continuidade à formação dos nossos jovens músicos, designadamente do Quarteto Verazin e das masterclasses de António Salgado (canto), Pavel Haas Quartet (música de câmara), Miguel Rocha (violoncelo) e Capella Sanctae Crucis (música antiga).

 

Como foi feita a evolução do festival ao longo de quase quatro décadas, sendo um dos festivais com mais edições em Portugal?

O FIMPV foi criado em julho de 1979 pela concessionária da zona de jogo local, a empresa Sopete, S.A.., sob proposta do pianista Sequeira Costa – o primeiro director artístico. A fundação do FIMPV – então designado Festival Internacional de Música da Costa Verde – obedecia a quatro objectivos nucleares que viriam a manter-se e desenvolver-se ao longo do historial: a apresentação de intérpretes de nível internacional e dos músicos portugueses mais relevantes; lançamento de jovens intérpretes portugueses, ainda desconhecidos do grande público; valorização dos monumentos arquitectónicos da região como espaços de concerto; e promoção da região em Portugal e no estrangeiro. Subjacente a esses objectivos tem estado a preocupação constante da divulgação das obras-primas da grande música de todas as épocas e o apoio à criação contemporânea. A programação do evento foi evoluindo ao longo do seu historial, desde logo com a introdução de uma forte aposta na divulgação da música antiga ‘historicamente informada’, a partir do início dos anos 90 do século passado, ou, a partir de 2005, no apoio mais sistemático à nova música portuguesa (criação do Concurso Internacional de Composição da Póvoa de Varzim) ou aos jovens músicos da região (Orquestra Sinfónica da Póvoa de Varzim, em 2005, e, a partir de 2007, ao Quarteto de Cordas Verazin. Paralelamente, foi ganhando importância a inserção de ‘Manifestações Paralelas’ ao lado da programação nuclear, privilegiando a actuação de alunos e agrupamentos provenientes das Escolas de Música da região, designadamente os da Escola de Música da Póvoa de Varzim, tendo em vista uma maior motivação e participação jovens nos grandes momentos do FIMPV, como executantes e mesmo como colaboradores na logística.

 

O vosso festival marca acima de tudo a criação musical e a envolvência de artistas consagrados e novos artistas. Como é feita essa comunhão?

Temos procurado que a colaboração dos artistas consagrados que nos visitam não se confine aos recitais e concertos de que são protagonistas. Sobretudo através das masterclasses regularmente programadas em cada ano, solistas e agrupamentos como Alexander Kniazev, Ana Mafalda Castro, António Salgado, Augusto Trindade, Boris Berezovsky, Claudio Cavina, Cristina Ortiz, Daniel Rowland, Eric Le Sage, Fine Arts Quartet, Jean-Marc Luisada, Les Witches, Luís Pipa, Marcel Ponseele, Miguel Rocha, Mstislav Rostropovitch, Pavel Haas Quartet, Pieter Wispelwey, Quarteto de Cordas Prazak, Quatuor Ardeo, Quatuor Ebène, Resonet, Roger Muraro, Valentina Igoshina ou Will Sanders (entre outros) têm transmitido  aos nossos jovens artistas parte da experiência e vivências de que são privilegiados detentores.  

 

Uma cidade, vários palcos e muita música dividida por artistas nacionais e internacionais. É um conceito vencedor?

A evolução da programação ao longo das últimas décadas fica a dever-se a diversos condicionalismos. Desde logo aos recintos disponíveis em cada época – a inserção regular de concertos com música antiga ‘historicamente informada’ teve a ver com a acústica e peculiar envolvimento de espaços como a Igreja Românica de São Pedro de Rates ou a Igreja Matriz da Póvoa de Varzim (construção barroca) e a ausência de espaços adequados à interpretação musical com formações de grandes dimensões. A interacção dessa circunstância com a resposta positiva do público não só às propostas da música antiga antes referidas, mas também às de música de câmara instrumental e vocal e sinfónica (esta, bastante mais tarde, à medida que outros recintos foram sendo disponibilizados) a cargo de artistas nacionais e internacionais acabaram de facto por construir a realidade de hoje – um público fidelizado e em contínua renovação (mercê da acção das Escolas do Ensino Artístico da região) face aos grandes nomes do circuito internacional a quem o FIMPV conseguiu garantir a sua credibilidade. Mas o actual conceito é naturalmente evolutivo: o FIMPV está atento à evolução das estéticas artísticas e de interpretação, sem preconceitos, tendo apenas como preocupação a qualidade artística e logística a oferecer aos diversos públicos que frequentam hoje as nossas salas.  

 

Como é preparada a divulgação do evento ao longo do ano?

Atendendo à carga histórica que o FIMPV transporta consigo, a programação é preparada com grande antecedência: como exemplo, as primeiras negociações com o Pavel Haas Quartet ou com a Cappella Mediterranea, que este ano fazem parte das nossas propostas, decorreram já há cerca de quatro anos. As primeiras medidas de implantação da logística necessitam de um ano de antecedência, logo a seguir à edição anterior e beneficiando das necessárias correcções então aportadas. A divulgação desencadeia-se logo a seguir à conferência de imprensa agendada um mês antes de cada edição, já com os mínimos detalhes assegurados.  

 

De que forma a APORFEST poderá ajudar na chegada do vosso festival a mais público e tornar a música dita clássica de forma mais abrangente a público, media e parceiros?

A actividade da APORFEST permite divulgar em rede as mais importantes iniciativas que se organizam no país. Essa característica poderá ser uma importante mais-valia para o FIMPV. Uma vez que o seu público-alvo constitui uma faixa muito específica e já bastante consolidada, será natural que a divulgação da programação nos canais da APORFEST seja alargada substancialmente a públicos, media e parceiros menos familiarizados com o âmago da nossa programação, ao propor outros horizontes, mais desinibidos e abrangentes.    

 

Download programa edição 2017 

 

 

 

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