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ENTREVISTA - Artes à Vila e a autenticidade na ligação da música, património e comunidade, com Eduardo Jordão (diretor do festival)

  • há 10 minutos
  • 6 min de leitura

Num cenário único onde património, música e comunidade se cruzam, o Festival Artes à Vila regressa ao Mosteiro da Batalha entre 17 e 19 de julho para mais uma celebração da música portuguesa e da cultura contemporânea. Criado em 2018, o festival tem vindo a afirmar-se como um dos projetos culturais mais singulares da região Centro, transformando um dos monumentos mais emblemáticos do país num palco de proximidade entre artistas, público e território. Ao longo da sua história, já recebeu nomes como Dulce Pontes, Paulo de Carvalho, Manel Cruz, David Fonseca, Júlio Pereira, Celina da Piedade ou Bia Caboz, reforçando a sua missão de valorizar a criação artística nacional e o património classificado pela UNESCO.


A edição de 2026 volta a apostar numa programação que cruza artistas consagrados, novos talentos e projetos emergentes, tendo como principais destaques os concertos de Jorge Palma e Ana Lua Caiano. O cartaz integra ainda atuações de Tomás Wallenstein, Romeu Bairos, Joana Alegre, Cristina Maria, Lisa Sereno, Puto Bacoco e diversos artistas da região de Leiria, numa programação que se estende também a exposições, oficinas criativas, visitas patrimoniais e atividades para diferentes públicos.


Entre os momentos mais relevantes desta edição destaca-se a realização da segunda edição dos PLAY Tradicional – Prémios da Música Portuguesa de Raiz Tradicional, reforçando o posicionamento do Artes à Vila enquanto espaço de valorização da identidade cultural portuguesa e das suas expressões musicais. À conversa com Eduardo Jordão, diretor do festival, procuramos conhecer os desafios e ambições deste projeto, o seu impacto na Batalha e a visão para o futuro de um evento que continua a afirmar-se como um dos mais autênticos encontros entre música, património e comunidade em Portugal.



1. O Artes à Vila tem vindo a afirmar-se como um festival singular no panorama nacional, cruzando património, música e comunidade num espaço tão emblemático como o Mosteiro da Batalha. Qual é hoje a principal missão do festival e o que o distingue de outros eventos culturais realizados em Portugal?

O Artes à Vila não é apenas um festival de música, é um encontro entre património, criação e comunidade e nesse sentido, desde 2018 que procuramos criar uma experiência cultural onde a música acontece em diálogo com o património edificado, a sua história e a sua acústica. O Mosteiro da Batalha não é apenas um cenário: é parte integrante da identidade do festival e influencia a forma como o público vive cada momento. Procuramos criar uma simbiose entre o património material e o nosso património imaterial da cultura portuguesa, os artistas consagrados e as descobertas de novas propostas emergentes que representam o futuro da música nacional.


O que distingue o Artes à Vila é precisamente esta relação entre património, artistas e comunidade. Não procuramos competir pela dimensão ou pela quantidade de nomes, mas pela qualidade da experiência: aproximar públicos, valorizar o território e criar momentos que dificilmente poderiam acontecer noutro contexto. É um festival pensado para que as pessoas não venham apenas assistir a concertos, mas para viverem a Batalha através da música, da gastronomia, do património e das pessoas.


2. A edição de 2026 apresenta nomes como Jorge Palma, Ana Lua Caiano e acolhe novamente os Prémios PLAY Tradicional. Como é construída a identidade artística do Artes à Vila e qual o equilíbrio procurado entre artistas consagrados, novas propostas e valorização da música de raiz portuguesa?

A identidade artística do Artes à Vila constrói-se através de uma curadoria que procura criar pontes. Há espaço para artistas com uma carreira consolidada, que trazem memória e ligação emocional ao público, mas também para novas vozes e projetos que representam o presente e o futuro da música portuguesa. No palco das músicas bonitas já passaram nomes como Dulce Pontes, JP Simões, Valter Lobo, Paulo de Carvalho, Benjamim, Manel Cruz, Júlio Pereira, Celina da Piedade, David Fonseca, Pedro Jóia, Filipe Sambado, Bia Caboz, Milhanas, entre muitos outros. Na edição de 2026 reforçamos um cartaz apelativo e emocional, permitindo mostrar essa ligação a artistas que fazem parte da nossa história musical, enquanto as propostas mais recentes revelam novas linguagens e novas formas de criar. Muitas destas novas linguagens têm toda a tradição musical dentro delas e isso é algo que sempre procurámos: a tradição e a inovação.


Existe também uma preocupação clara em valorizar a música portuguesa, não numa lógica de separação entre géneros, mas entendendo a tradição como algo vivo, em transformação e capaz de dialogar com novas gerações. É aqui, neste espaço vivo, de diálogo e partilha, que os prémios Play Tradicional encontram o seu lugar, ou seja, o festival mostra a vitalidade da música portuguesa e os Play Tradicional reconhecem essa criatividade, reinvenção e relevância dos artistas e profissionais da música de raíz tradicional. Podemos mesmo afirmar que o Artes à Vila é o palco vivo e os Prémios Play Tradicional são o seu momento de consagração.




3. Num momento em que muitos festivais procuram crescer em dimensão, o Artes à Vila parece apostar na experiência, no território e na autenticidade. Como avaliam o impacto do festival na Batalha e de que forma trabalham a relação com a comunidade local, os comerciantes e o património envolvente?

Um festival só faz sentido quando deixa uma marca positiva no território onde acontece. O Artes à Vila procura ser um projeto da Batalha e não apenas um evento realizado na Batalha. Trabalhamos essa relação através do envolvimento da comunidade, da valorização dos espaços locais e da criação de dinâmica para o comércio, restauração e agentes culturais. O património ganha também uma nova leitura. Deixa de ser apenas pedra e memória que (re)visitamos e passa a ser um espaço vivido, onde acontecem encontros contemporâneos.


4. A integração dos Prémios PLAY Tradicional reforça o papel do festival na promoção da música de raiz tradicional portuguesa. Considera que existe hoje uma renovada valorização destas sonoridades por parte dos públicos mais jovens? Que tendências têm observado?

Existe claramente uma nova curiosidade e valorização das sonoridades de raiz portuguesa. Muitos jovens estão a aproximar-se da tradição sem a verem como algo distante ou fechado. É visível essa evolução nos jovens criadores nacionais e na forma como o público se relaciona com a música portuguesa, até porque a tradição não é uma fotografia do passado, mas sim uma matéria viva. Temos observado uma aproximação maior entre artistas jovens e linguagens tradicionais, com cruzamentos entre instrumentos tradicionais, produção contemporânea e novas formas de composição.


O que mudou foi a forma como essa música é apresentada: há artistas que cruzam tradição, eletrónica, pop, experimentação e novas linguagens. Isso permite que a música tradicional continue a evoluir e encontre novos públicos. Os Prémios PLAY Tradicional ajudam precisamente a dar visibilidade a esse trabalho e a reconhecer uma área fundamental da nossa identidade musical.


5. Para os profissionais da indústria dos festivais, interessa perceber os bastidores do projeto. Quais são atualmente os maiores desafios na organização do Artes à Vila — financiamento, captação de públicos, comunicação, produção ou sustentabilidade do modelo do festival?

Os desafios são vários e diferentes desde 2018, e comuns a muitos projetos culturais. Garantir sustentabilidade financeira, manter a qualidade artística, comunicar eficazmente e continuar a criar valor para os públicos. Nesta edição iremos ter pela primeira vez bilhética associada a algumas atividades do programa, de forma a reforçar a valorização do trabalho artístico e contribuir para um modelo mais equilibrado do projeto. Há também o desafio de preservar aquilo que torna o festival especial à medida que cresce. Crescer não significa necessariamente aumentar escala; significa aprofundar impacto, melhorar a experiência e consolidar uma relação de confiança com artistas, público e parceiros.


A sustentabilidade passa por encontrar equilíbrio entre ambição artística, recursos disponíveis e responsabilidade com o território. O Artes à Vila tem vindo a consolidar uma rede de parcerias e uma visão cultural profissional para o território.


6. O festival tem vindo a crescer em notoriedade e relevância cultural. Olhando para os próximos anos, qual é a visão para o futuro do Artes à Vila? Existem novas ambições em termos de programação, internacionalização, impacto territorial ou desenvolvimento de públicos que gostariam de concretizar?

O futuro do Artes à Vila passa por continuar a afirmar a identidade de um festival de proximidade, mas com relevância nacional. Queremos continuar a explorar novas ligações entre música, património e comunidade, desenvolver públicos e criar novas experiências em torno do festival. Existe naturalmente espaço para novas ambições e para continuar a afirmar-se como uma referência na relação entre música, património e comunidade , seja através de novas parcerias, novos formatos ou maior projeção, mantendo sempre aquilo que é a essência do projeto: autenticidade, qualidade e ligação ao lugar e à história.


A ambição do Artes à Vila não passa apenas por crescer em dimensão, mas por continuar a crescer em significado: para os artistas, para o público e para o território.




Créditos: Fotos e Vídeos (Festival Artes à Vila 2025)

 
 
 

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