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MICROFONE estreia-se em Leiria e afirma-se como espaço de reflexão e ativação para o futuro dos eventos e da cultura

  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

A primeira edição do MICROFONE, promovida pela APORFEST, em parceria com o Teatro José Lúcio da Silva e Black Box, reuniu em Leiria, nos dias 28 e 29 de maio, nestes dois espaços culturais icónicos do centro da cidade - profissionais, promotores, agentes culturais, entidades públicas e especialistas de diversas áreas para dois dias de reflexão, formação e partilha de conhecimento sobre os desafios e oportunidades do setor dos eventos e da cultura em Portugal.



Ao longo do evento, foram debatidos temas centrais para o futuro da indústria cultural, desde a sustentabilidade económica dos festivais à descentralização cultural, passando pela valorização dos territórios, o turismo e a necessidade de cooperação entre diferentes agentes.


Um dos momentos mais marcantes foi o encontro de promotores de festivais da Região Centro, que evidenciou a riqueza e diversidade da oferta cultural existente. Para José Rafael (Cistermúsica), esta foi uma oportunidade rara de reunir diferentes projetos à mesma mesa. "Trabalhamos há tantos anos e a APORFEST permitiu que estivéssemos juntos, talvez pela primeira vez", destacou. "São festivais diferentes, cada um com o seu público e a sua missão, numa região que não é muito grande mas que demonstra uma enorme pluralidade cultural." Durante o debate, foi também reforçada a intenção de criar ainda este ano uma estrutura de cooperação permanente entre promotores da região, envolvendo entidades como o Turismo do Centro de Portugal e CCDR numa lógica de articulação e desenvolvimento conjunto.


A importância da cultura como ferramenta de transformação territorial foi outro dos temas em destaque. Cíntia Marques (Ti Milha) defendeu a necessidade de continuar a descentralizar a oferta cultural e de chegar a novos públicos, sublinhando que o desafio passa por "colocar cultura onde as pessoas não estão habituadas a ir".


A inovação na utilização dos espaços culturais foi igualmente abordada por Mariana Lois, responsável pelo Festival A Porta, que partilhou a evolução do projeto ao longo dos anos. "O A Porta é sempre novo a cada ano, ocupando novos espaços", afirmou, reforçando a importância da reinvenção constante para manter a ligação às comunidades. A sustentabilidade financeira dos eventos foi outro dos temas centrais das conversas. Ana Flores (d'Orfeu / Festim) alertou para os desafios que o crescimento do setor coloca aos organizadores. "Estamos bem em número de festivais e impacto, mas a sustentabilidade de todos é uma questão", referiu, numa reflexão partilhada por vários intervenientes. José Rafael acrescentou que a responsabilidade pelo financiamento da cultura deve ser partilhada por toda a sociedade. "Não podemos pôr sempre o ónus no Estado. Temos de falar com os pequenos empresários e com os cidadãos também", defendeu.


A realidade económica da indústria musical esteve igualmente em análise. Hugo Ferreira (Grama Pressing) destacou as transformações do mercado e as dificuldades crescentes enfrentadas pelos profissionais. "Tudo associado à produção aumentou, mas o preço de um vinil é praticamente o mesmo de há 15 ou 20 anos", observou, exemplificando a pressão existente sobre toda a cadeia de valor do setor.


No painel dedicado aos grandes eventos, Romeu Alves apresentou a experiência do RFM Somnii e a evolução dos modelos de negócio dos festivais. Recordou que o concerto de Andrea Bocelli representou o maior espetáculo de música clássica realizado em Portugal, reunindo mais de 25 mil pessoas, e explicou que o RFM Somnii assenta numa lógica fortemente analítica na tomada de decisões. "O nosso modelo é baseado na venda de bilhetes e no bar. A melhoria da experiência passa por conseguirmos ter mais sponsors associados aos eventos", afirmou.


Ao longo de dois dias, o MICROFONE confirmou a necessidade de criar espaços permanentes de encontro, reflexão e capacitação para os profissionais da cultura e dos eventos. A participação, a diversidade dos temas abordados e a qualidade dos intervenientes demonstraram que existe uma vontade crescente de discutir coletivamente o futuro do setor.


A programação do MICROFONE foi além da reflexão e da capacitação profissional, afirmando-se também como um espaço de fruição cultural e de aproximação a novos públicos. Nesse contexto, o humor assumiu um papel de destaque na primeira edição do evento.


O MICROFONE integrou também o "Comedy Lab: From Project to Stage", uma formação conduzida pelo ator, encenador e humorista Pedro Luzindro, dedicada aos bastidores da criação humorística e ao desenvolvimento de projetos de stand-up comedy. A componente prática ganhou continuidade nas noites do evento, com dois espetáculos de stand-up realizados no Teatro José Lúcio da Silva. No primeiro dia, Pedro Luzindro subiu ao palco acompanhado por convidados e no encerramento do MICROFONE, Carlos Vidal protagonizou a segunda noite de comédia, com casa cheia e a arrancar muitas gargalhadas.


Para a APORFEST, esta primeira edição representa um passo importante na missão de fortalecer o ecossistema dos festivais e eventos em Portugal, promovendo a colaboração, a inovação e a partilha de conhecimento entre todos os agentes da indústria.


O sucesso alcançado em Leiria deixa já lançadas as bases para futuras edições, consolidando o MICROFONE como um novo espaço de pensamento, debate e construção coletiva para a cultura portuguesa, que se pretende levar a todos os cantos do país.


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