ENTREVISTA: Azores Burning Summer: 12 edições a celebrar a música, o território e a comunidade, com Filipe Tavares (Diretor do Eco Festival Azores Burning Summer)
- há 2 horas
- 7 min de leitura
Em 2026, o Azores Burning Summer chega à sua 12.ª edição, consolidando um percurso que ultrapassa a dimensão de um festival de música. Desde 2015, o evento realizado na Praia dos Moinhos, na Ribeira Grande, tem vindo a afirmar uma identidade própria, assente na proximidade, na descoberta musical e numa relação cada vez mais profunda com o território e com a comunidade.
Ao longo dos anos, a programação foi-se alargando a áreas como o cinema, a literatura, a educação, a saúde e a sustentabilidade, reforçando a visão de um festival cultural com intervenção para além dos dias de concertos. Ao mesmo tempo, a organização procura responder aos desafios particulares de produzir um grande evento numa ilha, conciliando logística, mobilidade, sustentabilidade, economia local e as características únicas da Praia dos Moinhos.
Nesta entrevista à APORFEST, Filipe Tavares, presidente da ARTAC e Diretor do Eco Festival Azores Burning Summer, fala sobre a evolução do festival, a identidade que pretende preservar, os desafios da insularidade e a importância da ligação à comunidade açoriana. Aborda também as práticas de sustentabilidade desenvolvidas pelo evento, a aposta numa programação cultural multidisciplinar e os desafios que se colocam ao futuro de um festival independente que procura crescer sem perder a sua escala humana.

O Azores Burning Summer chega em 2026 à 12.ª edição. O que mudou no festival ao longo deste percurso e qual é a identidade que continua a querer preservar?
Mudou, sobretudo, a consciência da responsabilidade. O festival nasceu em 2015 de uma vontade muito forte de celebrar a Praia dos Moinhos, a música e a memória afetiva daquele lugar. Ao longo de doze edições, foi ganhando dimensão cultural e passou a ser pensado de forma mais abrangente, integrando ambiente, saúde, cinema, literatura, educação e trabalho comunitário.
Hoje temos mais experiência, uma operação mais estruturada e um público mais diverso. Encontram-se no festival pessoas dos Açores, comunidades imigrantes, residentes estrangeiros, visitantes e um público fiel que regressa todos os anos. Essa multiculturalidade tornou-se parte da identidade do projeto.
O que queremos preservar é a escala humana e a relação profunda com o território. Não pretendemos competir pelo maior cartaz ou pela maior lotação. A programação tem de ser coerente, estimular a descoberta e fazer sentido na Praia dos Moinhos. Não podemos escolher um artista apenas pela sua notoriedade; a música tem de dialogar com a paisagem, com a proximidade do público e com o ambiente que queremos criar.
Queremos também manter um festival sem barreiras desnecessárias. Não existem zonas VIP porque acreditamos que todos devem partilhar a mesma experiência. A essência continua a ser aproximar pessoas através da música, cuidar do lugar que nos acolhe e criar memórias felizes.
Realizar um festival nos Açores implica desafios muito particulares de logística, mobilidade, custos e sustentabilidade. Como é que estas condicionantes influenciam as decisões de produção e programação?
Influenciam praticamente todas as decisões. Transportar artistas, equipas e equipamentos para uma ilha envolve custos elevados, disponibilidade limitada de ligações e uma coordenação logística muito rigorosa. Alojamento, transportes, fornecedores e meios técnicos condicionam opções que, noutros territórios, seriam mais simples e menos dispendiosas.
Estas limitações obrigam-nos a programar com antecedência e maior seletividade. Avaliamos não apenas a qualidade artística, mas também as necessidades técnicas, as rotas de deslocação e a forma como cada proposta se integra no alinhamento. O objetivo não é reduzir a ambição, mas concentrá-la num cartaz coerente, em que cada artista acrescenta algo à experiência.
Na produção, privilegiamos recursos e fornecedores regionais. Cerca de 80% do investimento do festival é direcionado para empresas sediadas nos Açores. Esta opção fortalece a economia local, reduz algumas necessidades de transporte e ajuda a desenvolver capacidade técnica na Região.
A mobilidade do público é organizada através de parques de estacionamento periféricos e de um shuttle gratuito, incluindo veículos elétricos, para diminuir o trânsito junto à praia. A instabilidade meteorológica é outro fator permanente. A tenda de 800 metros quadrados do recinto principal permite acolher o público e manter a programação em caso de chuva, desde que estejam garantidas as condições de segurança.
A insularidade é uma condicionante real, mas também nos obriga a ser mais rigorosos, criativos e conscientes em todas as escolhas.
O Azores Burning Summer apresenta uma relação muito forte com o território e com a comunidade local. Como se constrói essa ligação e que impacto gostariam que o festival tivesse nos Açores para além dos dois dias de evento?
Essa ligação constrói-se através da presença, da escuta e da continuidade. A Praia dos Moinhos não é um espaço neutro onde instalamos temporariamente um festival. É uma comunidade com moradores, memórias e ritmos próprios. Por isso, a escala, os horários, os acessos, o som e a circulação são pensados em função do lugar.
Durante o evento, procuramos reduzir o trânsito na zona dos Moinhos e manter um contacto direto com moradores, proprietários, hóspedes e trabalhadores, para facilitar os acessos. Ao nível económico, queremos que o investimento permaneça na Região e tenha reflexos no alojamento, na restauração, no comércio, nos transportes e nos serviços locais.
Mas o impacto que ambicionamos não é apenas económico ou turístico. Queremos contribuir para que os Açores sejam reconhecidos também como território de criação, pensamento e cultura contemporânea.
É nesse sentido que desenvolvemos iniciativas fora dos dias de concertos. O Cinema da Autonomia leva história e reflexão a várias freguesias da Ribeira Grande. O VIVE trabalha a literacia em saúde e a prevenção. O HABITAT aproxima as crianças do património natural marinho. O Cinema na Praia e o Letras n’Areia criam novos contextos para o cinema, os livros e o debate.
No futuro, gostaríamos de dar maior continuidade anual a estes programas, estabelecer novas parcerias com escolas, associações e instituições científicas e criar novas oportunidades de formação e participação local. O verdadeiro impacto acontece quando o festival deixa conhecimento, relações e capacidade na comunidade, e não apenas movimento durante dois dias.
A sustentabilidade é uma das bandeiras do festival. Depois de mais de uma década de experiência, quais são hoje as práticas que consideram realmente transformadoras e onde sente que ainda existe muito por fazer na indústria dos festivais?
As práticas mais transformadoras são aquelas que deixam de ser invisíveis para o público e passam a fazer parte da sua experiência. O estacionamento periférico e o shuttle gratuito reduzem a circulação junto à praia. A utilização de veículos elétricos permite que muitas pessoas experimentem efetivamente essa forma de mobilidade. Os copos reutilizáveis, os ecopontos, os sistemas de refill, os cinzeiros individuais e a gestão de resíduos ajudam a transformar hábitos concretos.
O Eco Market aproxima o público de produtos, projetos de ecodesign e soluções baseadas na recuperação, reutilização e reciclagem de materiais. O HABITAT trabalha a literacia ambiental e oceânica com as crianças. Consideramos esta dimensão educativa essencial, porque a transformação não acontece apenas na operação: acontece também no conhecimento e nas escolhas que permanecem depois do festival.
A escala controlada e a contratação regional são igualmente importantes. Sustentabilidade não é apenas gerir resíduos; é pensar mobilidade, energia, materiais, fornecedores, economia local e capacidade do território.
Ainda existe muito por fazer, tanto no nosso festival como na indústria. Precisamos de metodologias comuns e transparentes para calcular a pegada carbónica, incluindo as deslocações do público e dos artistas. É necessário melhorar a eficiência energética, maximizar a reutilização de materiais, criar modelos circulares e exigir maior responsabilidade às cadeias de fornecimento.
A compensação carbónica pode ter um papel, mas apenas depois de medir e reduzir o impacto possível. O setor deve evitar proclamações de neutralidade que não consegue demonstrar. A sustentabilidade exige dados, avaliação independente e melhoria contínua.
A programação do Burning Summer cruza música com cinema, literatura, ambiente, saúde, educação e outras áreas. Porque é importante, na vossa visão, que um festival deixe de ser apenas um espaço de concertos e passe a assumir um papel cultural mais abrangente?
Porque um festival é um encontro de pessoas e, por isso, pode gerar muito mais do que entretenimento. A música é o centro emocional do Azores Burning Summer, mas também pode abrir portas para o conhecimento, a reflexão e a participação.
O Cinema da Autonomia trabalha a história contemporânea dos Açores e leva programação a freguesias que nem sempre estão no centro dos circuitos culturais. O Cinema na Praia cruza memória, território e identidade insular. O Letras n’Areia promove os livros e o pensamento crítico sobre o mar, o turismo e os diferentes olhares sobre as ilhas.
O VIVE aproxima a saúde e a prevenção da comunidade num ambiente informal. O HABITAT cria experiências de literacia ambiental e oceânica para as crianças. O Eco Market e a Expo de Veículos Elétricos permitem conhecer e experimentar alternativas mais sustentáveis. O Moinhos Revival preserva a dimensão afetiva e reconhece pessoas e memórias ligadas ao lugar.
Esta diversidade permite chegar a diferentes gerações e formar novos públicos. Uma pessoa pode aproximar-se do festival através de um concerto, de um filme, de um livro, de uma atividade de saúde ou de uma experiência ambiental.
Não queremos que estas iniciativas sejam entendidas como programação paralela. O objetivo é que sejam cada vez mais o próprio coração do projeto. Um festival culturalmente relevante deve celebrar, mas também cuidar, questionar, ensinar e deixar algo útil na comunidade.
Olhando para os próximos anos, quais são os maiores desafios para manter um festival independente, com identidade própria e profundamente ligado ao território — e onde gostaria de ver o Azores Burning Summer daqui a 10 anos?
O primeiro desafio é garantir um modelo de financiamento mais estável e previsível. O investimento privado continua a ser insuficiente e os apoios públicos nem sempre refletem a dimensão, o impacto e os custos reais do projeto. Quando as decisões são comunicadas tarde, a capacidade de planeamento e negociação diminui e o risco financeiro fica concentrado na organização.
Existe também o risco meteorológico, inevitável num evento ao ar livre, numa ilha e junto ao mar. Uma alteração das condições pode afetar a afluência, os acessos, a operação e o equilíbrio financeiro, mesmo quando existem estruturas de proteção e planos de contingência.
O próprio conceito é um desafio. Afastamo-nos deliberadamente da programação para massas e privilegiamos a descoberta musical, a sustentabilidade, a proximidade e a ligação ao território. Essa escolha torna o festival mais singular, mas também comercialmente mais vulnerável. O futuro depende de consolidar uma comunidade de público, parceiros e instituições que compreenda e valorize esta diferença.
Daqui a dez anos, não imagino necessariamente um festival maior. Imagino um projeto mais sólido, com melhores condições de trabalho, financiamento plurianual, impacto ambiental medido com rigor e programas comunitários ativos durante mais meses do ano.
Gostaria de desenvolver residências artísticas ligadas ao território e à land art, reforçar as relações com a Lusofonia, a Macaronésia e outras geografias atlânticas, investir na formação de novos públicos e criar mais oportunidades para artistas e profissionais dos Açores.
A Praia dos Moinhos deverá continuar a ser a origem, a inspiração e o limite do festival. Crescer, para nós, deve significar aprofundar a qualidade e o impacto positivo — não perder a escala humana que tornou o Azores Burning Summer especial.










Comentários