ENTREVISTA: Recrutamento Inclusivo nos Festivais - quando a integração também cria melhores eventos, com Ana Trigo (APPACDM)
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A inclusão no mercado de trabalho continua a ser um desafio que exige não apenas políticas e boas intenções, mas também oportunidades concretas para que cada pessoa possa demonstrar as suas capacidades. No caso das pessoas com deficiência intelectual, incapacidade ou doença mental, essa realidade passa muitas vezes por criar pontes entre a preparação para o trabalho e contextos profissionais onde essas competências possam ser efetivamente colocadas em prática.
É neste enquadramento que a APORFEST entrevistou Ana Trigo da APPACDM do Porto, instituição que, desde 1969, desenvolve um trabalho centrado na qualidade de vida, inclusão social e autodeterminação das pessoas com deficiência intelectual, dificuldades do desenvolvimento e outras incapacidades. No âmbito da integração profissional, a instituição tem procurado construir percursos ajustados a cada pessoa, aproximando os seus profissionais das necessidades concretas das organizações e promovendo experiências que permitam uma participação efetiva no mercado de trabalho.
Um dos exemplos deste trabalho encontra-se no POP – Profissionais com Orgulho e Propósito, projeto que procura criar oportunidades reais de integração profissional. A aposta passa pela preparação, capacitação e acompanhamento dos participantes, mas também pela sensibilização das entidades empregadoras para a importância de reconhecer competências e potencial para além dos preconceitos que ainda podem existir em torno da contratação inclusiva.
O setor dos festivais e dos eventos surge, neste contexto, como um território interessante para esta aproximação ao mercado de trabalho. A participação de profissionais em diferentes eventos tem permitido transformar formação em experiência, colocando à prova competências em ambientes dinâmicos e exigentes. É a partir desta realidade que a APORFEST entrevista a APPACDM do Porto, numa conversa sobre inclusão profissional, experiências no setor dos eventos, desafios e oportunidades, mas também sobre a responsabilidade que os festivais podem assumir na construção de um mercado de trabalho mais diverso e inclusivo.

Para quem ainda não conhece a APPACDM Porto, pode apresentar-nos o trabalho desenvolvido pela instituição e, em particular, este projeto de integração profissional?
A APPACDM do Porto, Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental, é uma instituição particular de solidariedade social, fundada em 1969, que trabalha diariamente para promover a qualidade de vida, a inclusão social e a autodeterminação de pessoas com deficiência intelectual, dificuldades do desenvolvimento e outras incapacidades, apoiando simultaneamente as suas famílias. A sua intervenção assenta na convicção de que todas as pessoas têm direito a participar plenamente na comunidade, exercer as suas escolhas e desenvolver o seu potencial. A instituição disponibiliza um conjunto diversificado de respostas e serviços, desde a intervenção precoce na infância até ao apoio à vida independente, à capacitação para a inclusão, à reabilitação social e ao acompanhamento residencial, procurando sempre construir respostas individualizadas e centradas na pessoa.
No âmbito da integração profissional, a APPACDM do Porto desenvolve um trabalho particularmente relevante através de iniciativas que promovem a empregabilidade e a participação ativa das pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Este esforço concretiza-se, entre outras ações, através do projeto APPinclui, que apoia a preparação para o emprego, a construção de percursos profissionais ajustados a cada pessoa, a elaboração de currículos, a preparação para entrevistas e o acompanhamento junto das empresas, sensibilizando igualmente os empregadores para práticas de recrutamento mais inclusivas.
O POP, profissionais com orgulho e propósito, projeto de integração profissional procura criar pontes entre as competências e aspirações das pessoas apoiadas e as necessidades das organizações, promovendo oportunidades reais de emprego e valorizando o contributo que cada trabalhador pode trazer para o contexto empresarial. Mais do que facilitar o acesso ao mercado de trabalho, o objetivo é garantir uma inclusão sustentável, baseada na igualdade de oportunidades, na autonomia e no reconhecimento das capacidades de cada pessoa. Desta forma, a APPACDM do Porto reafirma diariamente a sua missão de construir uma sociedade mais inclusiva, onde a diferença é valorizada e onde todas as pessoas podem participar, trabalhar e viver com dignidade.
Recentemente, um grupo de 15 formandos concluiu uma formação certificada em Serviço de Catering na Escola de Hotelaria e Turismo do Porto. Que competências adquiriram e que tipo de funções estão preparados para desempenhar em festivais e eventos?
Desenvolvida em parceria com a Escola de Hotelaria e Turismo do Porto, esta formação teve como principal objetivo dotar os participantes de competências técnicas e comportamentais essenciais para o desempenho de funções na área da restauração e dos eventos, reforçando simultaneamente a sua autonomia e empregabilidade.
Ao longo do percurso formativo, os formandos adquiriram conhecimentos relacionados com o atendimento ao público, serviço de alimentos e bebidas, preparação e organização de espaços para eventos, regras de higiene e segurança alimentar, gestão e acondicionamento de materiais, bem como procedimentos de apoio logístico em contextos de catering. Paralelamente, desenvolveram competências transversais muito valorizadas pelo mercado de trabalho, como o trabalho em equipa, a comunicação, a responsabilidade, a gestão do tempo e a capacidade de adaptação a diferentes contextos profissionais.
Graças a esta preparação, os participantes encontram-se aptos a desempenhar diversas funções de apoio em festivais, feiras, congressos e outros eventos, nomeadamente no acolhimento e acompanhamento de participantes, apoio ao serviço de catering, preparação e reposição de alimentos e bebidas, montagem e organização de espaços, apoio logístico de bastidores e assistência às equipas operacionais. Mais do que uma qualificação técnica, esta formação representou uma oportunidade concreta de integração profissional, demonstrando que, com as ferramentas e o apoio adequados, as pessoas com deficiência podem assumir um papel ativo e valioso em ambientes de trabalho exigentes e dinâmicos, contribuindo para eventos mais inclusivos e para uma sociedade mais aberta à diversidade.
Estes profissionais já participaram em diversos eventos, como o MEO Marés, iniciativas da Liga Portugal, eventos na Alfândega do Porto e ações para empresas. Que aprendizagens retiram destas experiências e que feedback têm recebido por parte das organizações?
A participação em eventos de grande dimensão, como o MEO Marés, iniciativas da Liga Portugal, eventos realizados na Alfândega do Porto e diversas ações corporativas, tem sido uma experiência extremamente enriquecedora para estes profissionais. Mais do que colocarem em prática os conhecimentos adquiridos durante a formação, estas oportunidades permitem-lhes desenvolver competências num contexto real de trabalho, marcado pelo dinamismo, pela exigência e pelo contacto direto com diferentes públicos.
Entre as principais aprendizagens destacam-se o reforço da autonomia, a capacidade de adaptação a ambientes de trabalho distintos, a gestão de tarefas sob pressão, o trabalho em equipa e a comunicação com colegas, clientes e participantes. A experiência em eventos contribui também para o aumento da confiança e da autoestima, uma vez que os formandos percebem o impacto positivo do seu trabalho e sentem-se parte integrante das equipas que tornam cada evento possível.
O feedback recebido por parte das organizações tem sido muito positivo. As entidades parceiras destacam frequentemente o profissionalismo, o empenho, a responsabilidade e a motivação demonstrados pelos participantes. Muitas empresas referem ainda a qualidade do trabalho desenvolvido, a disponibilidade para aprender e a forma como estes profissionais contribuem para ambientes de trabalho mais inclusivos e colaborativos.
Estas experiências têm também um papel importante na sensibilização das organizações para o potencial das pessoas com deficiência, ajudando a desconstruir preconceitos e a demonstrar, na prática, que a diversidade é um fator de enriquecimento para as equipas. O reconhecimento recebido por parte dos parceiros reforça a importância de continuar a criar oportunidades de integração profissional, promovendo percursos de sucesso que beneficiam simultaneamente os trabalhadores, as organizações e a sociedade.
Muitas vezes existem receios ou preconceitos relativamente à contratação de pessoas com deficiência intelectual, incapacidade ou doença mental. O que diria aos organizadores de festivais que nunca tiveram uma experiência de recrutamento inclusivo?
Diria, antes de mais, que o maior obstáculo à contratação inclusiva é, muitas vezes, o desconhecimento. É natural que existam dúvidas quando uma organização nunca teve contacto com profissionais com deficiência intelectual, incapacidade ou doença mental, mas a experiência demonstra que essas reservas tendem a desaparecer rapidamente quando surge a oportunidade de trabalhar em conjunto.
Os festivais e grandes eventos são espaços onde se valorizam competências como o compromisso, a responsabilidade, a capacidade de trabalhar em equipa e a vontade de aprender. São precisamente estas características que encontramos frequentemente nos profissionais que participam nos nossos programas de integração. Quando recebem a formação adequada e desempenham funções ajustadas ao seu perfil, estes trabalhadores revelam-se elementos motivados, empenhados e capazes de acrescentar valor real às equipas.
A contratação inclusiva não deve ser vista como um ato de solidariedade, mas sim como uma oportunidade de recrutar talento e diversificar equipas. Além disso, as organizações não estão sozinhas neste processo. Existe acompanhamento técnico, preparação prévia dos candidatos e apoio contínuo para garantir que a integração decorre de forma positiva para todas as partes.
Aos organizadores que nunca tiveram esta experiência, deixaria um convite simples: experimentem. Comecem por uma colaboração, uma equipa ou um evento. Na maioria dos casos, a principal surpresa não é aquilo que estas pessoas precisam de apoio para fazer, mas sim tudo aquilo que conseguem fazer quando lhes é dada uma oportunidade.
A inclusão acontece quando deixamos de olhar para as limitações e passamos a reconhecer as competências, o potencial e o contributo único que cada pessoa pode trazer. Os festivais são celebrações de diversidade, cultura e comunidade; faz todo o sentido que esses valores também estejam presentes nas equipas que os tornam possíveis.
Na prática, que benefícios pode trazer aos festivais a integração de profissionais através da APPACDM? Que tipo de acompanhamento é assegurado pela instituição durante este processo?
A integração de profissionais através da APPACDM do Porto traz benefícios que vão muito além do cumprimento de objetivos de responsabilidade social. Para os festivais, representa a oportunidade de reforçar as equipas com pessoas motivadas, comprometidas e preparadas para desempenhar funções específicas, contribuindo para o bom funcionamento das operações e para a criação de ambientes de trabalho mais diversos e inclusivos. As organizações que apostam no recrutamento inclusivo destacam frequentemente o elevado nível de empenho, a dedicação às tarefas atribuídas, o sentido de responsabilidade e o impacto positivo que estes profissionais têm na dinâmica das equipas. Além disso, a presença de trabalhadores com percursos e experiências diferentes promove uma cultura organizacional mais aberta, colaborativa e alinhada com os valores da diversidade e da inclusão, cada vez mais valorizados pelo público, pelos parceiros e pelos próprios colaboradores.
No caso dos festivais, onde existe uma grande variedade de funções de apoio operacional, atendimento, logística ou catering, estes profissionais podem desempenhar um papel importante, contribuindo para responder às necessidades dos eventos e enriquecendo simultaneamente a experiência das equipas de trabalho.
Relativamente ao acompanhamento, a APPACDM do Porto assegura um processo próximo e personalizado em todas as fases da integração. O trabalho começa com a identificação das necessidades da organização e das funções a desempenhar, procurando garantir o melhor ajustamento entre o perfil dos candidatos e as tarefas disponíveis. Segue-se a preparação dos profissionais para o contexto de trabalho e, durante a integração, é disponibilizado acompanhamento técnico especializado, tanto aos trabalhadores como às equipas que os recebem. Este apoio contínuo permite esclarecer dúvidas, apoiar a adaptação ao posto de trabalho, monitorizar a evolução da experiência e encontrar soluções sempre que surjam desafios. O objetivo é garantir que a integração decorre de forma tranquila, eficaz e benéfica para todos os envolvidos, criando condições para que os profissionais possam demonstrar as suas competências e para que as organizações tenham uma experiência positiva e bem-sucedida de recrutamento inclusivo.
Em suma, a APPACDM do Porto funciona como uma parceira de confiança neste processo, assegurando que a inclusão não é apenas uma intenção, mas uma prática concreta, estruturada e sustentável, capaz de gerar valor para os festivais, para os profissionais e para a comunidade.
Que mensagem gostaria de deixar aos promotores e organizadores de festivais associados da APORFEST sobre o papel que o setor pode desempenhar na construção de um mercado de trabalho mais inclusivo?
Aos promotores e organizadores de festivais associados da APORFEST, gostaríamos de deixar uma mensagem simples: o setor dos festivais tem uma capacidade única de influenciar positivamente a sociedade e de dar o exemplo na construção de comunidades mais inclusivas. Os festivais são espaços de encontro, celebração e diversidade. Reúnem pessoas de diferentes origens, culturas, gerações e experiências em torno de um objetivo comum. Por isso, faz todo o sentido que esses mesmos valores se reflitam também nas equipas que trabalham nos bastidores e tornam os eventos possíveis.
Ao abrirem as portas a profissionais com deficiência intelectual, incapacidade ou doença mental, os festivais não estão apenas a criar oportunidades de emprego. Estão a contribuir para a quebra de barreiras, a combater preconceitos e a demonstrar que a inclusão pode ser uma realidade concreta e bem-sucedida. Cada oportunidade de trabalho representa uma possibilidade de crescimento pessoal, autonomia e participação ativa na sociedade. O setor dos festivais tem hoje a oportunidade de assumir um papel de liderança nesta transformação, mostrando que é possível conciliar excelência operacional, inovação e responsabilidade social. Muitas vezes, basta dar o primeiro passo para perceber que a diversidade fortalece as equipas, melhora os ambientes de trabalho e cria experiências mais ricas para todos os envolvidos.
A nossa mensagem é, por isso, um convite à ação: que continuem a olhar para a inclusão não como uma obrigação, mas como uma oportunidade. Uma oportunidade de descobrir talento, de gerar impacto social positivo e de contribuir para um mercado de trabalho onde as competências e o potencial de cada pessoa sejam mais importantes do que qualquer rótulo.
Porque uma sociedade mais inclusiva constrói-se com pequenas decisões tomadas todos os dias. E os festivais, pela sua dimensão, visibilidade e capacidade de mobilização, podem ser agentes fundamentais dessa mudança.
Créditos: Fotos APPACDM










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